Levantamento da RSM aponta 21 demissões de pilotos da FAB só no 1º trimestre de 2026. No ritmo atual, a Força Aérea pode perder quase 100 aviadores no ano.
A Força Aérea Brasileira perdeu 21 oficiais aviadores só no primeiro trimestre de 2026 | Imagem: RSM/IA
Escrito por JB Reis – Vinte e um oficiais aviadores pediram baixa da FAB só entre janeiro e março de 2026. O êxodo de pilotos militares da Força Aérea Brasileira — tema que a Revista Sociedade Militar acompanha há anos — ganhou novos e preocupantes contornos em 2026. Levantamento exclusivo da RSM aponta que, apenas no primeiro trimestre deste ano, 21 oficiais aviadores pediram baixa.
Nesse cenário, se esse ritmo se mantiver, a FAB pode encerrar o ano com uma perda superior a 84 militares qualificados.
Vale lembrar que, independentemente de quem são os indivíduos, suas condutas ou particularidades, esses militares custaram pequenas fortunas aos cofres públicos. Além disso, os meios e equipamentos que eles operam são ainda mais caros.
Afinal, até que o próximo tenente, um jovem nas casa dos 21 anos, esteja apto para fazer seus “voos solo”, anos e anos terão transcorrido. Por exemplo, a substituição de um piloto de caça, é ainda mais trabalhosa e cara.
Formar um piloto militar é uma fortuna — e repor quem sai não é simples
Para além do número de baixas, como sabemos, a Força Aérea Brasileira não tem muitos aviões.
Dito isso, seria insensato formar centenas de pilotos anualmente. Além disso, não é tarefa fácil mensurar o custo para se formar um piloto militar no Brasil.
De acordo com estimativas não oficiais citadas por especialistas em defesa australianos apontam que o custo de formação de um aviador militar brasileiro pode superar R$ 7 milhões apenas na fase básica, podendo alcançar dezenas de milhões quando somados os anos de qualificação operacional.
Em outras palavras, o custo de formação de cada aviador militar é elevado e leva anos — o que torna cada demissão não apenas uma perda de efetivo, mas um prejuízo em capital humano de difícil reposição.
Ex-comandante da FAB acende o alerta: “grau de dissuasão muito reduzido”
Há alguns dias, o ex-comandante da FAB, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior afirmou que o Brasil enfrenta uma deterioração gradual de sua capacidade militar e que a área de defesa vive um momento de alerta.
Segundo o oficial, agora na reserva – ele trabalha na Airbus como Assessor Sênior de Estratégia – o alerta (ou como ele mesmo disse: “a luz vermelha“) se trata da “difícil constatação de que nossas Forças Armadas não estão minimamente preparadas para os conflitos modernos.
“Que o grau de dissuasão militar está muito reduzido”, disse o ex-comandante da FAB.
Não por acaso, ele, mais do que muitos, deve saber do que fala, já que a evasão de pilotos da FAB não começou ontem, mas há muitos anos. Bem antes de ele conduzir os destinos da maior Força Aérea da América latina.
Além disso, essa debandada de oficiais sem dúvida é mais um peso na crise por que passa a Defesa brasileira.
Na prática, o que a saída de dezenas de pilotos significa para a FAB
Pode parecer mero ir e vir de profissionais, mas quando se trata de atividade militar não é bem assim.
Na prática, a saída de dezenas de aviadores reduz a disponibilidade de tripulações, aperta escalas de voo e compromete a continuidade de missões essenciais, tais como patrulha aérea, transporte, instrução e resposta rápida em cenários de emergência.
De fato, a própria cobertura recente sobre a crise aponta que a perda de pilotos está associada à queda de horas de voo, à falta de perspectiva na carreira e ao sucateamento de meios.
Por isso, essa conjunção de fatores ajuda a explicar porque a evasão de pilotos não pode ser enxergada meramente como uma questão trabalhista ou corporativa.
Como resultado, quando a perda atinge profissionais altamente qualificados, a FAB sente o efeito diretamente na prontidão, no ritmo de treinamento e na capacidade de manter operações contínuas em todo o território nacional.
Os 21 pilotos que a FAB perdeu: postos, unidades e datas registrados no DOU
A Força Aérea Brasileira (FAB) publicou no Diário Oficial da União (DOU) pelo menos 21 portarias de demissão de oficiais aviadores só neste primeiro trimestre de 2026.
Segundo o levantamento da Revista Sociedade Militar, esses desligamentos envolvem militares de diferentes postos — de primeiro-tenente a major — e ocorreram de janeiro a março deste ano.
Nº
Posto
Portaria
Data
Militar
Unidade
1
1T
GABAER Nº 419/GC1
24/03/2026
R. R. N.
BABR
2
1T
GABAER Nº 345/GC1
17/03/2026
L. B. C. R.
GLOG-BE
3
1T
GABAER Nº 308/AAJ-SAJ
06/03/2026
M. S. T. N.
1º/2º GT
4
1T
GABAER Nº 295/GC1
05/03/2026
L. E. C. P.
1º ETA
5
1T
GABAER Nº 293/GC1
05/03/2026
F. C. V.
1º/2º GT
6
1T
GABAER Nº 287/GC1
05/03/2026
K. G. G.
1º/5º GAV
7
CP
GABAER Nº 401/AAJ-SAJ
20/03/2026
V. G. P.
COMAE
8
CP
GABAER Nº 403/GC1
20/03/2026
B. P. L.
DCTA
9
CP
GABAER Nº 290/GC1
05/03/2026
E. B. O. J.
PAMA-SP
10
CP
GABAER Nº 291/GC1
05/03/2026
B. R. S.
GTE
11
CP
GABAER Nº 289/GC1
05/03/2026
P. I. P. B.
5º/1º GCC
12
CP
GABAER Nº 288/GC1
05/03/2026
V. A. A.
IV COMAR
13
CP
GABAER Nº 255/GC1
25/02/2026
R. C. S.
1º/1º GT
14
CP
GABAER Nº 209/GC1
19/02/2026
I. S. S. S.
1º/10º GAV
15
CP
GABAER Nº 192/GC1
12/02/2026
R. M. B. M.
1º/14º GAV
16
CP
GABAER Nº 191/GC1
12/02/2026
I. J. A. M. F.
2º/6º GAV
17
CP
GABAER Nº 190/GC1
12/02/2026
D. H. D. A.
5º ETA
18
CP
GABAER Nº 5/GC1
05/01/2026
A. P. L. S.
2º/10º GAV
19
MJ
GABAER Nº 189/GC1
12/02/2026
W. S. R.
DECEA
20
MJ
GABAER Nº 73/GC1
20/01/2026
B. S. T.
COMPREP
21
MJ
GABAER Nº 22/GC1
07/01/2026
A. V. V. J.
BACG
Conforme apurado, a maior parte dos desligamentos se deu com base no artigo 1º, inciso III, do Decreto nº 8.798, de 4 de julho de 2016, que autoriza a concessão de demissão a pedido do próprio oficial.
Em todos esses casos, o Comandante da Aeronáutica concedeu a demissão e incluiu o militar, com o mesmo posto, na reserva não remunerada — situação prevista para aqueles que ainda não completaram o tempo mínimo para a reserva remunerada.
Entre os casos identificados, estão demissões de capitães, tenentes e majores aviadores vinculados a esquadrões operacionais e a organizações de apoio, como o 1º/14º GAV, o 1º/2º GAV, o PAMA-SP, a BABR e o GTE.
Capitães lideram o êxodo: o mercado civil atrai quem mais voa
Ao contrário do que aconteceu em 2025, em 2026 os capitães respondem pela fatia mais expressiva dos desligamentos registrados até agora.
Com metade do número de capitães que saíram da FAB, os primeiros-tenentes aviadores foram o dobro da saída de majores.
Posto
Qtd
%
1T (1º Tenente)
6
28,6%
CP (Capitão)
12
57,1%
MJ (Major)
3
14,3%
Total
21
100%
Na verdade, os capitães representarem mais da metade das demissões, não é algo inesperado.
É no posto de oficial intermediário que o militar já acumulou experiência de voo suficiente para ser atrativo para o mercado civil (companhias aéreas comerciais), especialmente diante da forte demanda por pilotos no Brasil e no exterior.
No fundo, a saída voluntária de pilotos militares para a aviação civil é um fenômeno estrutural, agravado nos últimos anos pela expansão das companhias aéreas e pela abertura do mercado de trabalho para pilotos com habilitação militar.
Por fim, o custo de formação de um aviador militar para a FAB é elevado, o que torna cada demissão um dado relevante para o planejamento de efetivo da corporação.
Fonte: sociedademilitar
Fonte: Tribuna Popular

