(Imagem ilustrativa) Foto: Unsplash/Soheb Zaidi
Moro no Espírito Santo. E, se há um lugar lindo e especial, dos muitos por onde já passei neste país afora, é este estado. Aqui, há uma calmaria no ar, dessas que aquietam o coração. Sem falar nas belezas naturais e no charme das pequenas cidades, com seus traços de colonização italiana e alemã.
Mas há um contraste que incomoda. Esse lugar que tanto gosto também ostenta números altos de feminicídio e de crimes contra a mulher. Na última semana, na madrugada do dia 23, a primeira comandante da Guarda Civil de Vitória, capital do estado, foi morta a tiros pelo ex-namorado, que tirou a própria vida em seguida.
Foi de forma cruel que a policial Dayse Barbosa — referência no combate à violência contra a mulher — se tornou vítima do crime que tanto combatia.
Coincidentemente, também na semana passada, o Senado aprovou o chamado PL da Misoginia, que define como crime “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres”.
E foi impossível não pensar: o que, na prática, essa lei poderia ter feito por Dayse?
Confesso que fui tentar entender melhor o tal termo “misoginia”. Já havia ouvido falar, claro. Mas nunca tinha parado para olhar com mais atenção. E o que encontrei foi um verdadeiro balaio de gatos. A pauta é progressista e identitária, pois tem o objetivo de defender minorias.
O objetivo desta humilde coluna é ajudar leitores com dificuldades com o nosso idioma. Assim, se eu fosse fazer um glossário sobre o tema, englobaria machismo, patriarcado, machosfera, redpill — ou seja, teorias de superioridade masculina. Femismo, que prega a superioridade da mulher; feminismo, que busca a igualdade entre os sexos; e misoginia, que seria a aversão a mulheres pelo fato de elas serem mulheres.
Mas não para por aí. Surgem ainda termos importados, difíceis até de se pronunciar: mansplaining, manterruption, gaslighting, bropriating… Se a sua cabeça deu um nó, fique tranquilo. A minha também.
Ainda assim, a pergunta continua ecoando: o que essa lei teria feito por Dayse?
Para mim, a resposta mais honesta veio de uma amiga. Essa querida também faz parte das estatísticas. Viveu por anos um relacionamento abusivo, que só terminou quando o então marido a ameaçou de morte, descrevendo, inclusive, como faria.
Ela, quando soube do caso da policial, disse algo que não me saiu da cabeça:
— Se uma guarda que combatia esse tipo de crime teve esse fim… pobre de mim.
E foi aí que entendi que talvez a pergunta não seja exatamente sobre o nome que damos às coisas. Sim, a lei define, enquadra, tipifica. Organiza o mundo no papel. Mas a vida não cabe só nisso.
Como mulher, já fui vítima de misoginia. Me pergunto: e quantas de nós não fomos? Imagino que todas tenhamos sido. Então, na boa? Não é o papel mandando prender, punir ou amordaçar que vai mudar o comportamento do ser humano. Antes, é a educação. É o falar sobre. É o ensinar a não.
Porque, no fim das contas, enquanto discutimos até onde alguém pode falar; o que é ou não é comportamento de ódio; há mulheres tentando simplesmente continuar vivas. E protegê-las deveria ser a maior urgência.

