Foi há 40 anos. Eu nunca tinha visto um culto da Assembleia de Deus. Na minha juvenil prepotência, guardava todo tipo de preconceito contra os assembleianos. Via aquele povo como gente inculta, sem teologia, legalista.
Para piorar minha pobre condição, eu era aluno da Universidade de São Paulo, estudava hebraico, falava inglês e aprendia alemão. Já me sentia “teólogo”.
Como Deus poderia lidar com uma criatura de cabeça dura?
Por caminhos que só a graça divina prepara, acabei indo parar em um culto assembleiano. Era tudo estranho. Gente simples, vestida de modo peculiar. Ternos, saias e coques marcavam o cenário modesto da pequena igreja de bairro.
Mas a serenidade daquela gente sofrida me chamou a atenção. As orações calorosas em conjunto foram uma surpresa à parte. Palavras, testemunhos e versículos completavam a experiência inusitada que, aos poucos, amansava a arrogância oculta do meu coração pecador.
Foi então que o dirigente convocou a todos: “Vamos cantar o hino 126 da Harpa.”
Entre aleluias e glórias, o povo entoou:
“Bem-aventurado o que confiaNo Senhor, como fez AbraãoEle creu, ainda que não viaE, assim, a fé não foi em vão”
Ver aquela gente humilde adorando me quebrou. O calor daquele momento espiritual me aqueceu, enquanto eu corava por minha arrogância ali humilhada. Descobri que eu não sabia de nada e que, com bondade, o Pai me ensinava.
Mas, ao ouvir outra estrofe do hino, a cura completa irrompeu, com lágrimas que banharam o rosto do menino insolente:
“Quem quiser de Deus ter a coroaPassará por mais tribulaçãoÀs alturas santas ninguém voaSem as asas da humilhação”
Nunca me esqueci do hino libertador. E, às vezes, o menino mau volta. Nessas horas, eu canto: “Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação.”
Assembleia de Deus em todo lugar. Até na lua.

