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CPI do Crime Organizado terminou em “pizza”?

CPI do Crime Organizado Foto: Carlos Moura/Agência Senado
Participei diretamente da CPI do Crime Organizado. Não falo como espectador, mas como membro efetivo de uma comissão que, desde o início, já carregava um destino previsível. A presidência estava nas mãos do PT e, nos bastidores, muitos de nós sabíamos que o desfecho dificilmente seria técnico ou independente.
Ainda assim, entrei para trabalhar. Apresentei requerimentos, propus convocações relevantes e insisti no aprofundamento de pontos sensíveis. A resposta? Silêncio institucional. Nada foi considerado. Em mais de uma ocasião, ouvi justificativas vagas, do tipo: “não é o momento político” ou “isso pode gerar instabilidade”. Desde quando CPI existe para preservar conforto?
O episódio mais emblemático veio na reta final. O relatório simplesmente não foi aprovado, não por falta de mérito, mas por uma manobra política escancarada: retiraram dois senadores da comissão e inseriram governistas para garantir o resultado. Não foi derrota de argumentos; foi rearranjo de cadeiras. E, paradoxalmente, foi justamente nesse movimento que algo relevante aconteceu.
O relatório trouxe a exposição de pedidos de indiciamento contra três ministros do Supremo Tribunal Federal: Moraes, Toffoli e Gilmar, além do Procurador-Geral da República, Gonet. Ainda que o Senado não tenha dado seguimento, o registro está feito. E isso tem peso político. A ideia de um Supremo intocável, imune a questionamentos, já não se sustenta como antes. E não sou eu quem afirma isso; os dados apontam nessa direção.
Pesquisa recente do Datafolha revela um cenário contraditório, porém revelador. Ao mesmo tempo em que a maioria dos brasileiros reconhece a importância do STF para a democracia, cresce de forma significativa a percepção de que seus ministros concentram poder excessivo. Mais do que isso, aumenta a desconfiança. Ou seja, o respeito institucional ainda existe, mas a confiança está rachando.
No fim das contas, a CPI pode até ser chamada de “pizza”. A frustração é compreensível. Mas, tendo estado lá dentro, afirmo: não foi apenas isso.
As tentativas de abafamento falaram mais alto do que muitos depoimentos. As manobras ficaram expostas. E, sobretudo, caiu mais um pedaço da narrativa de perfeição institucional.
Se houve “pizza”, ela veio acompanhada de algo que incomoda mais do que qualquer resultado formal, a revelação explícita de como o “jogo” é feito.
A CPI terminou. A exposição, não.


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