spot_img

O governo federal está de olho em você: Hoje é o hotel. Amanhã, será o quê?

O governo federal está de olho em você (Imagem ilustrativa) Foto: IAChat GPT
Aprendi, ao longo da vida pública, a desconfiar de toda “facilidade” que exige, em troca, mais dados do cidadão. A história mostra que o preço quase sempre é maior do que parece e, desta vez, não é diferente.
Agora, o Brasil adota a chamada Ficha Nacional de Registro de Hóspedes Digitais, integrada à conta Gov.br. Na prática, o que foi vendido como modernização do turismo transforma o simples ato de se hospedar em mais um ponto de coleta de informações centralizadas pelo Estado. Onde você está, para onde vai, quanto tempo ficará, tudo passa a ser registrado de forma padronizada e acessível ao sistema governamental.
O argumento oficial é previsível: eficiência, padronização, combate à informalidade, melhoria na experiência do turista. É o mesmo roteiro de sempre. A promessa de agilidade como justificativa para ampliar a base de dados do cidadão.
Mas eu me pergunto e faço questão de registrar essa inquietação: desde quando o problema do turismo brasileiro era a falta de dados sobre hóspedes? Desde quando o gargalo do setor era o check-in manual? A resposta honesta disso tudo pode ser desconfortável.
No livro 1984, de George Orwell, a ideia de um Estado que sabe tudo sobre seus cidadãos parecia distante, quase caricata. Hoje, ela se apresenta de forma muito mais sofisticada, não pela imposição direta, mas pelo acúmulo gradual de “pequenas” medidas. Nenhuma delas, isoladamente, parece absurda. Mas, somadas, constroem um novo padrão na relação entre indivíduo e poder público. É assim que sistemas de controle começam: não com ruptura, mas com adesão.
Diante do exposto, o governo diz que é para facilitar. Eu observo que centraliza. O governo diz que é para modernizar. Eu vejo que amplia a rastreabilidade. O governo diz que é para organizar. Eu percebo que cria precedentes perigosos.
Não se trata de comparar realidades distintas de forma simplista, mas de compreender mecanismos. Modelos como o sistema de vigilância da China não nasceram prontos. Foram sendo estruturados ao longo do tempo, sempre sob justificativas administrativas plausíveis. Quando se percebeu o alcance, a engrenagem já estava consolidada. E é justamente aí que reside o ponto central dessa situação do turismo. A questão não é o check-in digital em si, mas o princípio por trás dele.
Até onde o cidadão deve ir para provar quem é, onde está e o que está fazendo? E, mais importante: quem controla essas informações e sob quais limites?
Não compro a ideia de que isso é apenas tecnologia a serviço do turismo. Tecnologia nunca é neutra quando envolve poder. Ela sempre atende a um modelo de governança e esse protótipo precisaria ser debatido antes de ser normalizado.
Se há algo que a história e a literatura nos ensinam, é que a liberdade não se perde de uma vez. Ela é cedida, pouco a pouco, geralmente em nome da conveniência.


Fonte:

+Notícias

Últimas Notícias