Confira as notícias do dia, por Cícero Moura.
Foto: Reprodução / Inteligência Artificial
BATE PAPO
Toda semana aparece um novo “gênio” da conveniência. Quem não roubou, facilitou. Quem não facilitou, fez vista grossa. E sempre tem um “laranja” pronto pra assumir o papel de idiota útil.
BATE PAPO 2
Na hora de explicar, vira culto: “Graças a Deus.” “Deus é testemunha.” “Deus sabe o que faz.” Pelo ritmo, Deus já deve estar com cargo fixo em gabinete.
BATE PAPO 3
É tanto milagre seletivo que comecei a desconfiar. Ou Deus virou avalista de esperteza ou estão usando o nome Dele como biombo.
BATE PAPO 4
Fui direto ao ponto: Deus realmente anda ajudando esse pessoal
ou só colocaram Ele no esquema sem direito de defesa?
CONVERSA
A resposta veio no bate-papo com Deus, inclusive com um pouco de vergonha alheia.
ENCONTRO
Encontrei Deus esses dias. Não estava em nuvem nem nada — parecia mais alguém cansado de assistir noticiário político em looping.
Sentei do lado e fui direto: Meu Pai, rapidinho… não era pra ninguém pegar o que é dos outros, certo?
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Ele respondeu sem nem olhar: Era. Continua sendo. “Não furtarás”, lembra? Mas vocês fizeram um upgrade: agora não é roubo, é “gestão criativa de recursos”.
Ah, claro… tipo quando uma obra custa o triplo e ainda fica pela metade? Exatamente. Milagre ao contrário: o dinheiro some e a obra não aparece.
Segurei o riso. E licitação que sempre ganha a mesma empresa? Coincidência divina?
Ele deu uma risadinha. Divina não. Bem humana. Vocês transformaram concorrência em reencontro de velhos amigos.
E quando descobrem tudo isso? Aí começa o espetáculo. Tem CPI com cara de série longa, depoimento dramático, fala indignada… e final que ninguém entende. Às vezes nem quem participou.
— E o povo? O povo é resiliente. Reclama, se irrita, faz meme… e depois esquece o nome de quem fez o quê na hora de votar. Memória curta é o melhor aliado de quem faz coisa errada.
Cocei a cabeça e resolvi subir o tom: E o Judiciário, hein? Nem ele escapou, meu Pai. Juiz, magistrado, gente envolvida em roubo, corrupção e penduricalhos num monte de benefício que ninguém entende direito. Tá difícil; onde vamos parar?
Deus respirou fundo, daquele jeito de quem já esperava a pergunta.
Justiça que vira privilégio deixa de ser referência e vira comparação. E quando quem devia dar exemplo começa a disputar vantagem, o problema não é só jurídico… é moral com toga.
Fiquei quieto por um segundo. Mas e esses “penduricalhos” todos?
Ele respondeu com ironia leve:
— Vocês são criativos. Onde era pra ter limite, vocês inventam exceção. Onde era pra ter regra, criam interpretação. E assim vão esticando a corda… até ela lembrar que arrebenta.
Voltei ao roteiro.
— E essa turma que fala em Deus o tempo todo, jura honestidade, mas aparece em esquema estranho?
Ele olhou pra mim com aquele olhar de “sério mesmo que você perguntou isso?” Meu nome anda sendo usado mais que promessa em campanha. Já virou quase slogan. Só esqueceram de combinar comigo.
— E a tal da “rachadinha”?
Ah !! Deram até apelido carinhoso. Quando o erro ganha diminutivo, parece até que fica mais leve, né? Mas continua sendo o básico ignorado: “não furtarás”.
Ri, meio sem graça. Continuei.
E dinheiro que era pra saúde, educação… e some?
Dessa vez ele foi direto:
— Aí não é só corrupção. É crueldade com etiqueta formal.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Mas, sinceramente, meu Pai… tem jeito?
Ele respondeu rápido:
Tem. Só não é do jeito que vocês gostam. Não vem em pacote, não tem discurso bonito, nem foto oficial. Começa com gente fazendo o certo sem plateia. E vocês acham isso pouco interessante.
— E quem faz o certo? Hoje em dia parece até rebelde. Vai contra o sistema da “esperteza”. É quase um ato revolucionário, sem precisar de hashtag.
Ele levantou, já se despedindo.
— Então tá tudo perdido? Não. Tá mal administrado — principalmente por vocês mesmos.
Já ia embora quando virou de volta, com um sorriso maroto:
Ah… e você, hein?
— Eu o quê?
Dá uma segurada nos seus pedidos. É ajuda pra cá, milagre pra lá, solução urgente toda semana, meu setor de atendimento contigo já está quase pedindo reforço.
Fiquei sem saber se ria ou me escondia.
E vou te contar um segredo — ele completou. — Metade do que você me pede, já vem com manual de instrução: chama-se atitude.
E sumiu.
Fiquei ali, sozinho, pensando que talvez o maior milagre não seja o que a gente pede. É o que a gente evita fazer.
Fonte: Tribuna Popular

