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A escalada do antissemitismo no Brasil e o aval do governo

Manifestação contra o semitismo, em Londres, Inglaterra (Imagem ilustrativa) Foto: EFE/EPA/NEIL HALL
Em abril de 2026, um bar no Rio de Janeiro afixou, em sua porta, uma placa proibindo explicitamente a entrada de cidadãos americanos e israelenses. O mais assustador nesse episódio não é apenas a segregação ilegal e xenofóbica, mas a “inversão moral” que a sustenta: o proprietário do estabelecimento agiu à luz do dia, convicto de que estava praticando uma virtude, um ato de resistência que seria aplaudido por sua bolha ideológica.
É exatamente assim que as páginas mais sombrias da Europa dos anos 1930 começaram: com boicotes comerciais justificados por uma suposta superioridade moral e coletivista.
Esse episódio sintomático ilustra uma lição irrefutável que a história política e social do Ocidente ensina: o antissemitismo é o termômetro mais preciso da degradação das liberdades em uma sociedade. Quando o ódio contra judeus passa a ser tolerado, relativizado ou justificado no debate público, é sinal de que as bases do Estado de Direito já estão em processo de ruína.
O Brasil, infelizmente, caminha a passos largos nessa direção. Com a marca alarmante de até seis casos de antissemitismo registrados por dia em 2024, o país assiste a uma corrosão sem precedentes de seu tecido social.
Levantamentos de entidades como a Confederação Israelita do Brasil (Conib) apontam saltos que variam de 150% a 1000% nas denúncias desde o final de 2023. Esse cenário não é obra do acaso, tampouco uma geração espontânea de preconceito. É o resultado direto de um ambiente político que chancelou a intolerância sob o disfarce de “justiça social”.
Para compreender a gravidade desse fenômeno, é preciso desmascarar a profunda hipocrisia de grande parte da classe política, intelectual e midiática brasileira. Os mesmos grupos que, durante anos, monopolizaram o discurso de defesa das minorias e banalizaram acusações de “nazismo” e “fascismo” para aniquilar reputações de adversários políticos, agora silenciam de forma cúmplice diante do antissemitismo real.
Fica escancarado que a empatia e o rigor moral dessa elite são estritamente seletivos e ideologizados. O preconceito encontrou um novo e sofisticado esconderijo: a máscara do “antissionismo”. Sob o pretexto de realizar críticas geopolíticas ao Estado de Israel, normaliza-se o assédio a estudantes judeus em universidades, o boicote a empresas e o flerte explícito com grupos extremistas.
O papel das lideranças nesse processo de legitimação do ódio é central, e a responsabilidade primária recai sobre o chefe de Estado. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao emitir declarações levianas que comparam a legítima defesa de uma nação democrática às atrocidades do Holocausto, cruzou uma linha vermelha que vai muito além da inépcia diplomática.
Ao adotar esse tipo de revisionismo histórico na cadeira mais importante da República, o presidente emitiu um “apito de cachorro” para as alas mais radicais da militância. A consequência foi imediata e quantificável: os dados mostram um pico nas denúncias de antissemitismo nas semanas seguintes às suas falas. O Brasil passou a ser citado negativamente em relatórios internacionais, incluindo documentos do governo dos Estados Unidos, que destacam a correlação direta entre a retórica do Executivo e a escalada da hostilidade nas ruas.
Quando a autoridade máxima do país sinaliza que a hostilidade contra judeus e israelenses é politicamente aceitável, o cidadão comum, inebriado pela polarização, sente-se encorajado a agir. É exatamente essa dinâmica que viabiliza a perda absoluta de limites morais vista no caso do bar carioca, mencionado no início deste texto.
Embora o Ministério Público tenha agido rapidamente naquele caso e o estabelecimento tenha sido multado, o episódio serve como um alerta estridente. Sob a ótica da defesa inegociável das liberdades individuais, o que está na mesa de apostas é o pilar central da nossa civilização: a garantia de que nenhum indivíduo será punido coletivamente por sua nacionalidade, etnia ou religião.
Permitir que a xenofobia e o antissemitismo vicejem sob o disfarce de ativismo político cria um precedente jurídico e social devastador. Hoje, a perseguição e a tentativa de exclusão do espaço público são direcionadas a israelenses e judeus. Se essa transgressão for normalizada, amanhã qualquer grupo poderá ser alvo de segregação, legitimada pelas conveniências e paixões do governo de plantão.
É imperativo que a sociedade civil, as instituições democráticas e os defensores genuínos das liberdades individuais tracem um limite intransponível contra essa escalada. A intolerância jamais poderá encontrar abrigo na liberdade de expressão, muito menos ser subsidiada pela omissão e pelo discurso inflamado de quem detém o poder.
Defender a comunidade judaica e repudiar o antissemitismo, hoje, não é apenas um ato de solidariedade histórica; é a linha de frente da defesa do próprio Estado de Direito no Brasil.
 
Davi de Souza é graduando em Gestão Pública pela UFMG, é pesquisador em Ciência Política e Políticas Públicas na UnB e atua como assessor parlamentar na Câmara dos Deputados.


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