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O bonito e o feio do 13 de Maio 

O bonito e o feio do 13 de Maio (Imagem ilustrativa) Foto: IA
O 13 de Maio revela duas faces: uma bonita e outra feia. A face bonita é a lembrança da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, abolindo oficialmente a escravidão no Brasil. A face feia é a tentativa de, parte do movimento negro contemporâneo, desqualificar a importância da lei e de sua autora.
Vamos aos fatos:
O lado bonito é óbvio: a Lei Áurea fez diferença. E muita.
A abolição veio tarde e de modo incompleto: faltaram políticas públicas, inclusão, acesso à terra, educação e integração econômica. Tudo isso é verdade. Mas tentar transformar a Lei Áurea em algo irrelevante ou “sem importância” é um erro histórico e moral.
Dentro da cultura da época, das resistências políticas, econômicas e sociais existentes, foi um movimento corajoso, útil e civilizatório. A princesa Isabel pagou um preço político alto pela decisão, e muitos historiadores apontam a abolição como um dos fatores que aceleraram a perda de apoio da monarquia entre setores escravistas.
Tanto a princesa Isabel quanto Dom Pedro II possuem diversos relatos históricos de trato humano e digno em relação aos negros e ao movimento abolicionista. Dom Pedro II defendia gradualmente o fim da escravidão e apoiou medidas que enfraqueceram o sistema escravocrata ao longo do tempo.
A princesa Isabel, inclusive, recebeu homenagem oficial do papa Leão XIII pela assinatura da Lei Áurea e ficou conhecida por muitos como “A Redentora”. E ela o foi, sim.
Isso significa que eram perfeitos? Claro que não. Eram pessoas do século 19, vivendo dentro de uma sociedade profundamente contraditória. Mas negar a importância histórica da Lei Áurea é simplesmente desonesto.
E aí chegamos ao lado feio do 13 de Maio.
Parte do movimento negro tenta apagar e diminuir essa data e substituí-la pelo Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Ocorre que uma data não precisa excluir a outra. É perfeitamente possível reconhecer a importância de Zumbi, da resistência negra e da consciência racial sem precisar atacar a Lei Áurea ou a princesa Isabel.
Aliás, essa tentativa de transformar tudo em disputa ideológica acaba sendo contraproducente, racista e até intelectualmente pobre.
A história real é complexa. Os mesmos grupos que criticam a princesa Isabel por pertencer a uma sociedade escravocrata silenciam sobre os registros históricos de que o próprio Zumbi dos Palmares também manteve escravos dentro da estrutura de Palmares.
Mais: se vamos falar da resistência negra, então precisamos lembrar também de Ganga Zumba, figura histórica fundamental e muitas vezes esquecida no debate público.
O Brasil precisa amadurecer. A direita precisa parar de criticar tanto Zumbi, e a esquerda e os ativistas precisam lembrar que a escravidão envolveu também elites africanas e estruturas locais de captura e venda de escravos, o que mostra como a história real é mais complexa do que narrativas simplificadas e enviesadas ideologicamente.
Precisamos acabar com o negacionismo da História, com o reescrever seletivo e com o anacronismo ao julgar o passado com os padrões morais atuais.
O Brasil não precisa apagar a História, mas aprender com ela. Um país maduro reconhece seus heróis, suas contradições e seus avanços. E, sem esquecer os lados menos luminosos, precisa comemorar Isabel, Zumbi e Zumba.


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