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Como trabalhar menos? Os desafios do debate da escala 6×1

Pescaria (Imagem ilustrativa) Foto: Pixabay/ Pasja1000
Se perguntarmos para um trabalhador quanto tempo de trabalho ele gostaria de ter na semana mantendo a mesma remuneração atual, teríamos algum número que seria entre as 44 horas atuais limitadas pela Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) e zero. Quando a pergunta é feita para um empregador e também considerando a manutenção da remuneração do trabalhador, a resposta tenderá a responder algo entre 44 horas ou mais.
Os interesses são difusos, é fato. É coerente o trabalhador buscar menor carga de trabalho e o empresário buscar maior produtividade. Não pretendo propor uma luta de classes, pelo contrário, pretendo buscar neste artigo um ponto de equilíbrio.
Conceitualmente, trabalho significa: “Aplicação de esforço físico ou intelectual humano para atingir um objetivo, produzir algo ou satisfazer necessidades, podendo ser remunerado (emprego) ou voluntário”.
O modelo de trabalho capitalista envolve a troca do tempo e esforço do trabalhador com a finalidade de produzir bens ou serviços que trarão resultado financeiro para o empreendedor; o empregado por sua vez receberá uma remuneração pelo empregador, que toma o risco do negócio e assume os custos tanto de salários quanto demais envolvidos.
Imagine que eu sou um pescador e utilizo uma lança para pescar. Com o meu trabalho consigo pescar três peixes por dia, o suficiente para alimentar a minha família mas não para estocar parte para o dia seguinte. Nesse cenário, todos os dias eu precisarei sair para pescar, de outro modo faltará alimento. Eu não tenho opção de não ir trabalhar.
Imagine agora que inventei uma rede de pesca e um anzol, além de aprender a fazer iscas e, com essas novas tecnologias, eu consigo pescar nove peixes por dia. Com essa produção, eu posso optar por trabalhar menos e produzir os mesmos três peixes que antes, posso produzir nove e vender ou estocar o restante, ou chegar em um ponto de equilíbrio em que eu possa trabalhar menos, mas ter ainda assim uma produção maior que anteriormente. Entende onde quero chegar?
Quando conseguimos aumentar a produtividade, aumentamos também o excedente de retorno e isso possibilita que eu possa trabalhar menos e que a economia continue crescendo.
O desafio proposto na discussão da escala 6×1 é válido, o problema é sair de uma pauta populista (afinal existem mais trabalhadores do que empregadores votando) e entrarmos em uma discussão lógica que invariavelmente envolve a forma como setores, principalmente varejo, vão se reorganizar, e também envolve a produtividade da economia como um todo.
De acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), quando observamos o Produto Interno Bruto (PIB) em dólar dividido pelas horas trabalhadas da população economicamente ativa, o Brasil está no patamar de 21,20 dólares (R$ 106,88, no câmbio de hoje). Quando comparamos com países membros do G7, vemos um patamar superior a 52,70 dólares (R$ 265,69, no câmbio de hoje), que é o caso do Japão, ou superior.
Conforme o mesmo relatório, quando comparamos a produtividade do Brasil com os demais países, o Brasil está atrás de Cuba, Argentina, Arábia Saudita, Suriname, Rússia, entre outros, ocupando a posição de 94ª no ranking.
A luta por melhores condições de trabalho, melhores escalas ou menor carga horária é necessária; o ponto é discutirmos também quais mudanças são necessárias para que a economia brasileira possa, também, ser mais produtiva.
O Brasil já possui alto custo tributário, insegurança jurídica, modelos de relação de trabalho pouco flexíveis, alto custo de capital, políticas públicas ineficientes como a Zona Franca de Manaus, subsídios para setores ineficientes, alto custo de importação de tecnologia e muitos outros pontos a discutir.
O trabalhador quer trabalhar em melhores condições, o empregador quer crescer a sua empresa, ter capacidade de lucrar mais e investir mais. Qual é o denominador que atenderá a ambos? Uma economia que priorize PRODUTIVIDADE e consequentemente flexibilize a carga de trabalho.
No entanto, o Brasil representa o pescador que pesca apenas três peixes por dia e está considerando reduzir a quantidade de trabalho, ignorando o fato que faltará comida.

Germano Laube é sócio da LDC Capital consultoria de investimentos, especialista em planejamento financeiro e fellow do Instituto Amplifica.


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