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Até quando vamos amanhecer contando vítimas no trânsito?

A semana passada terminou com um número preocupante de acidentes registrados na região. Praticamente todos os dias, a imprensa noticiou novas ocorrências. Em muitos deles, mais de um acidente no mesmo dia. Em alguns casos, com vítimas fatais.
Veio então aquele sentimento de alívio: “ufa, mais uma semana acabou”. Mas bastou chegar a madrugada de domingo, logo nas primeiras horas de uma nova semana, para a BR-364 ceifar mais duas vidas em Pimenta Bueno, vítimas que eram moradoras de Espigão do Oeste. Foi com essa notícia triste que muitos moradores da região amanheceram o domingo, lendo os principais sites de notícias e acompanhando as redes sociais.
O acidente foi de tamanha violência que ficou difícil descrever a cena encontrada no local. Um dos veículos ficou totalmente destruído. A equipe de resgate da Nova 364 atuou rapidamente no atendimento da ocorrência, tendo como prioridade o socorro ao motorista da carreta, que foi encaminhado para atendimento médico. Na sequência, os trabalhos se concentraram no resgate dos corpos das vítimas que estavam na caminhonete. O Corpo de Bombeiros e a Polícia Rodoviária Federal também estiveram no local, dando suporte e garantindo a segurança durante toda a operação.
Segundo relatos em grupos de caminhoneiros, pouco tempo depois teria ocorrido outro acidente não muito longe dali.
Mas o que mais preocupa é que esses acidentes deixaram de ser casos isolados. Dados oficiais da Polícia Rodoviária Federal mostram que, entre janeiro e 26 de maio de 2026, foram registrados 555 acidentes e 32 mortes no trecho da BR-364 entre Vilhena e Porto Velho. Somente entre Vilhena e Pimenta Bueno, foram contabilizados 116 acidentes e cinco mortes no mesmo período.
E o problema não está apenas na BR-364. As rodovias estaduais, estradas municipais e ruas das cidades também têm sido palco de situações graves.
Temos todos os tipos de imprudência: ultrapassagens em locais errados, avanço de preferência, excesso de velocidade, falta de atenção, pressa, desrespeito à sinalização e atitudes que colocam em risco a vida de todos.
Aqui não queremos culpar uma pessoa. Mas também não podemos fingir que ninguém tem responsabilidade. Há falhas de todos os lados. Governantes, concessionárias, órgãos responsáveis pela estrutura das vias e também motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. O trânsito depende de todos.
Sabemos que Rondônia tem problemas estruturais em muitas estradas. Há trechos perigosos, falta de acostamento, sinalização deficiente, curvas complicadas e rodovias que precisam de melhorias urgentes. Mas também é preciso perguntar: o que leva uma pessoa a trafegar a 150 km/h? O que leva alguém a ultrapassar em uma curva? O que faz um motorista entrar em uma curva em velocidade incompatível e sair da pista? O que justifica invadir a contramão e se chocar contra outros veículos?
Essas são perguntas que passaram pela minha cabeça a cada matéria escrita sobre acidentes registrados nos últimos dias.
Isso não é apenas problema estrutural. Isso também é escolha, comportamento e responsabilidade individual.
Até quando vamos ver famílias destruídas pela dor? Até quando vamos acompanhar sepultamentos marcados pelo desespero de uma mãe que perdeu o filho, de um filho que ficou sem a mãe, de um neto que nunca vai brincar com o avô porque uma vida foi tirada no trânsito?
Para quem fica, sobra a dor e a solidão. Para muitas vítimas que sobrevivem, ficam sequelas físicas e psicológicas. Marcas no corpo e na memória que nem o tempo consegue apagar.
Precisamos, com urgência, reunir todos à mesa para buscar soluções. Sem jogo de empurra, sem apenas apontar culpados, mas com cada um assumindo sua parte. Poder público, órgãos de trânsito, concessionárias, forças de segurança, motoristas profissionais, condutores particulares e toda a sociedade precisam discutir caminhos reais para reduzir essa tragédia diária.
Cada nova sepultura representa uma história interrompida. Sonhos que ficaram pelo caminho, famílias que jamais serão as mesmas e trabalhadores que jamais voltaram para seus entes queridos. Histórias que jamais terão uma segunda chance.
E a pergunta que fica é dura, mas necessária: será que a próxima família incluída nesses números de mortes será a minha ou a sua?
Enquanto essa resposta não chega, seguimos acompanhando novos acidentes, novas vítimas e novas histórias interrompidas. Mas talvez tenha chegado a hora de todos nós entendermos que a mudança começa antes da próxima tragédia acontecer.
Porque depois dela, para alguém, já será tarde demais.
Até quando vamos amanhecer contando vítimas no trânsito?

Por Flavisnei Favalessa


Fonte: Tribuna Popular

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