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O legado do ex-governador Guedes é o estado (1) – Por Montezuma Cruz

Coronel Humberto Guedes, o governador que preparou Rondônia para ser mais um estado brasileiro (Arquivo Museu da Memória Rondoniense)
Duas décadas após deixar o cargo, o ex-governador do extinto Território Federal de Rondônia, Humberto da Silva Guedes caminhava lentamente pelo terreno da sede do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, em Planaltina (DF), quando se deparou com este repórter. “Eu me lembro do senhor. Tinha algumas coisas a dizer, mas vocês eram ‘mancheteiros’ e eu não desejava atritos com o presidente”, disse. Guedes e sua esposa, dona Gilsa, participavam da confraternização denominada “Talentos da Primavera”, em 2000.
Guedes, coronel do Exército, falecido quinta-feira num hospital de Brasília aos 103 anos, era pai de Beatriz Guedes e sogro do médico Edison Saraiva Neves, ambos sócios do Centro Espírita, razão por que lá esteve, a convite deles.
Construtor das primeiras cidades ao longo da BR-364, das primeiras estradas intermunicipais, incentivador dos projetos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Humberto Guedes nunca foi oficialmente reconhecido. Mesmo com uma série de realizações, seu nome não foi dado a nenhuma rua, creche ou escola.
Conversando brevemente a respeito de seu governo (1975-19779), ele frisava que fora nomeado por decreto do então presidente da República, general Ernesto Geisel e, se fosse relatar inquietudes e insatisfações em seu governo “favoreceria possível animosidade”. Seu sucessor, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, fora nomeado pelo general João Baptista de Oliveira Figueiredo.
“O senhor conhece hierarquia? Eu tinha que respeitá-la”, ele declarava. No entanto, ao deixar o governo territorial, desligando-se do Partido Democrático Social (PDS), Guedes demonstrava-se insatisfeito com Teixeirão.
Deixou o cargo em 2 de abril de 1979, assumindo pouco depois o cargo de superintendente administrativo da Telebras. Na carta pública denominada “Aos amigos de Rondônia”, em 12 de outubro de 1982, ele se queixava de Teixeirão, a quem acusava de “detratar” a sua administração.
Desfiliava-se do PDS, partido sucedâneo da antiga Aliança Renovadora Nacional (Arena): “Não poderia continuar em um partido (PDS), cujos dirigentes em Rondônia tratam aqueles que me apoiaram como adversários políticos” – justificava-se.
O principal descontentamento de Guedes foi a restrição imposta pelo partido ao coronel Carlos Augusto Godoy, ex-comandante de fronteira do Acre e Rondônia. “Ele só ingressou na oposição (MDB), porque foi rejeitado pelo PDS”, escrevia Guedes.
“Ao mesmo tempo em que me chama de irmão, reúne-se amigavelmente com todos aqueles que foram ferrenhos opositores à minha administração, para contemplá-los com importantes cargos na administração e no comando do PDS”, queixava-se Guedes.
Incisivo, dizia desconhecer as razões de o sucessor tratá-lo como adversário. “Nunca tive pretensões políticas ou outras aspirações que representassem ameaça às suas grandes ambições”, continuava.
Para Guedes, a atitude de Teixeira teria impossibilitado, por exemplo, as candidaturas do ex-governador João Carlos Mader, do ex-prefeito de Guajará-Mirim, Rigomero da Costa Agra, e do deputado Antônio Morimoto, que trocara São Paulo por Rondônia.
 
“Chá de cadeira”
Entre as indisposições que conseguiu evitar durante os quatro anos de governo no território, está uma audiência que fora concedida em Brasília pelo então ministro da Indústria e Comércio, Ângelo Calmon de Sá.
Guedes quis apresentar-lhe um plano para o fomento cafeeiro, valendo-se da construção de vilas rurais, do apoio o INCRA, da Embrapa, e da antiga Associação de Crédito e Extensão Rural de Rondônia (Aster).
Depois de um ‘chá de cadeira’, Calmon, que também havia dirigido o Banco Econômico S/A, o dissuadia, alegando que Rondônia deveria se contentar com a riqueza mineral. “Vocês têm enorme riqueza metal e mineral, ele me dizia, e eu retornei para Porto Velho com algum desânimo”
O governador percebeu que o ministro baiano defendia mesmo os interesses de seu estado. Nessa mesma ocasião, o grupo Fischer em Ouro Preto do Oeste preparava sua primeira exportação de cacau para Hanover (Alemanha), missão confiada ao agrônomo Assis Canuto, executor do Projeto Integrado de Colonização Ouro Preto.
Na área cafeeira, Guedes já contava com o entusiástico apoio da Embrapa, em cuja Unidade trabalhavam, entre outros, os agrônomos pesquisadores William Curi e Wilson Veneziano.
Para o cacau, o grupo Fischer havia conseguido financiamento da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), com o objetivo de beneficiar as colheitas dentro de Rondônia. Em meio a batalhas burocráticas nos escalões do poder, em Brasília, o então presidente do Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau, Humberto Salomão Mafuz entregava documento ao presidente Geisel, condenando investimentos em cacaueiros rondonienses por causa do fungo Crinipellis perniciosa (vassoura de bruxa).
1975: a pé, o presidente Ernesto Geisel caminha próximo a populares, na Praça Getúlio Vargas em sua visita a Porto Velho; atrás dele, o governador Guedes (Foto Presidência da República)
 
Rondônia no período Guedes
► O secretário de agricultura Edgar Cordeiro instalou em Costa Marques, em1976, o primeiro berçário de tartarugas e tracajás da Amazônia Ocidental, conservando assim essas espécies de quelônios.
► Guedes criou núcleos, entre os quais, os de Apoio Administrativo e da Secretaria de Finanças, divididos provisoriamente entre o titular, Alexandre Ferreira Lima Neto, e o auxiliar, Arthur de Mello Júnior. O major Arthur morreu na explosão de um avião Minuano em Jaru.
► Guedes transformou a Guarda Territorial em Polícia Militar e construiu o quartel da corporação. Construiu ainda a sede do Instituto Médico-Legal, o primeiro prédio do Tribunal de Contas, e reestruturou a segurança pública. Reformou o Palácio das Secretarias (antigo Porto Velho Hotel) na Capital e iniciou as obras da Esplanada das Secretarias, no Bairro Pedrinhas. Construiu o prédio do Fórum Rui Barbosa, primeira sede do futuro Tribunal de Justiça e concluiu o projeto da hidrelétrica de Samuel.
► Promoveu em 1976, com o Ministério de Minas e Energia, o 1º Congresso Brasileiro do Estanho, realizado numa sala do Colégio Carmela Dutra.
► De 1975 a 1979, dentro do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), o território recebeu o Polamazônia (Programa de Polos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia), cujo objetivo foi criar polos agrícolas regionais que permitissem fixação populacional nas áreas de mineração e de interesse estratégico, formando zonas de integração para a concentração de capitais.
► Em meados dos anos 1970, o rebanho bovino de Cacoal ultrapassava 6 mil cabeças. Nas áreas do Projeto de Colonização Gy-Paraná (na época escrito com G), próximas àquele município havia 1,1mil cabeças; ao longo da BR-364, 3,8 mil, e nos finais de linha, 1,45 mil. Rondônia já criava gado mestiço nelore, gir e indu-Brasil, com matrizes trazidas dos estados de Mato Grosso e Minas Gerais. Ainda não havia exportação.
► A produção de leite in natura era muito pequena, de 1,5 mil litros por dia. Leite em pó vendia bem naquela cidade e em todas as outras do território. Hortifrútis vinham de Presidente Prudente (SP) e Campo Grande (MS), distribuídos por caminhões da empresa Takigawa, que atuava aqui e no Acre.
► Era de 40 cruzeiros, com alimentação, o valor da diária do trabalhador braçal no território, e de 50, sem alimentação; na zona rural, 30 e 40 cruzeiros respectivamente.
(Continua)
 


Fonte: Tribuna Popular

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