Netanyahu e Trump em encontro na cidade de Miami, em 2025 Foto: EFE/Oficina del primer ministro (GPO)
A recente formalização de um Memorando de Entendimento (MoU) de 14 pontos entre os Estados Unidos e o Irã foi envolta na retórica oficial como a aurora de uma nova estabilidade no Oriente Médio. Contudo, sob a lente da ciência política e de uma cosmovisão que não ignora a natureza decaída das estruturas de poder, o que se desenha não é um triunfo da alta política (statecraft), mas um perigoso exercício de apaziguamento.
O que verdadeiramente jaz nas entranhas desse suposto “acordo de paz” é uma fratura estratégica e profunda entre Washington e Jerusalém.
Para compreender a fragilidade intrínseca desse arranjo, é imperativo dissecar a assimetria dos objetivos de guerra que hoje separam a Casa Branca de Jerusalém. Como apontam as recentes análises geopolíticas, Donald Trump e Benjamin Netanyahu, embora historicamente alinhados, operam sob lógicas estratégicas e relógios políticos distintos.
Para a administração americana, a prioridade é a obtenção de uma vitória diplomática rápida e transacionável — materializada na reabertura do Estreito de Ormuz e na prorrogação do cessar-fogo — com o fim único de estancar os custos econômicos e políticos.
Já para Israel, a guerra contra o Irã e seu eixo de proxies não é uma questão de conveniência geopolítica, mas um imperativo categórico de sobrevivência existencial. Para a opinião pública e a elite de segurança israelense, o memorando soa não como paz, mas como capitulação.
A recusa de Netanyahu em abandonar as zonas de segurança no sul do Líbano, na Síria e em Gaza, em contraste com a franca hostilidade verbal de Trump em relação ao premier israelense, escancara um abismo intransponível: os EUA buscam um deal a qualquer custo, enquanto Israel busca a neutralização de ameaças a qualquer custo.
Em síntese, o acordo, ao aliviar as sanções, atua como um mecanismo de financiamento involuntário do terrorismo. O senador Tom Cotton calcula que o alívio sancionatório injetará cerca de 200 milhões de dólares diários nos cofres da Guarda Revolucionária.
Esse capital não servirá ao bem-estar do povo iraniano, mas à reconstrução de estoques de drones e ao financiamento do Hamas e do Hezbollah.
A história é implacável ao nos advertir que a paz não pode ser construída sobre a areia movediça do apaziguamento. Este acordo não extingue a crise; apenas a coloca em compasso de espera.

