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Da Terra Cultivada à Feira que consagra a região: Cacoal celebra a 5ª Cafecau na Semana do Café e do Cacau

Na 5ª Cafecau, Cacoal celebra a história que a fez Capital do Café
A Semana Municipal do Café e do Cacau começa nesta segunda-feira (22); a 5ª Cafecau — a Feira do Café e do Cacau — acontece nos dias 26, 27 e 28 de junho, unindo memória e celebração.
Pesquisa e redaçãoDocumento elaborado a partir de fontes históricas e documentais.
Por:  Daniel Oliveira da Paixão.

Há cidades que nascem de um rio, de uma mina, de um porto. Cacoal nasceu de uma semente — e de uma teimosia. A teimosia de gente que veio de longe, plantou o que demora a dar fruto e, ao esperar, acabou construindo uma cidade inteira sobre uma cova de café.
Esta é a história de como o vermelho do grão maduro e o verde sem fim das matas se misturaram para formar, no interior de Rondônia, a Capital do Café.
A terra antes do nome
Antes da cidade, havia a floresta. Antes da estrada, havia o silêncio dos igarapés, o estalo da castanha caindo e o leite branco da seringueira escorrendo para mãos que vinham de longe. A Amazônia rondoniense seguia o próprio relógio de chuvas e cheias, e o cacau nativo amadurecia solto à sombra das árvores.
Foi por aqui que passou, em 1909, a linha telegráfica aberta pela Comissão Rondon — fios de cobre cortando o verde para costurar um Brasil que ainda era promessa. E foi seguindo esses fios que, por volta de 1920, chegou Anísio Serrão de Carvalho. Guarda-fios, vigia de uma civilização distante, ele se fixou às margens do Igarapé Pirarara, observou a fartura do cacau bravo crescendo pela mata e deu ao lugar o nome que carregaria para sempre: Cacoal — o cacaual, o lugar de cacau.
O nome veio antes da lavoura, antes do café, antes da palavra “progresso”. Veio de uma constatação simples e definitiva: aqui, a terra dá. O povoamento intenso, porém, só viria depois: Cacoal foi elevada a distrito em 1972 e a município em 1977 — mas a história que moldaria a sua identidade já estava a caminho, dentro de sacolas de migrantes que ainda nem haviam chegado.
A semente que veio de longe
A história mudou de andamento nos anos 1970. A BR-364 rasgou a distância, o INCRA desenhou lotes sobre o mapa e vieram os migrantes do Sul e do Sudeste — do Espírito Santo, do Paraná, de Minas Gerais. Traziam pouca coisa na bagagem e uma só ideia na cabeça: ficar.
Mas como provar a uma terra recém-aberta que se veio para ficar? Plantando algo que demora — algo que não dá fruto no primeiro ano nem no segundo. Plantando café. Nos lotes recém-ocupados, implantar uma lavoura perene como o cafezal era mais do que economia: era contrato com o futuro. Demonstrava o interesse do colono em se fixar e ajudava na regularização da posse junto ao INCRA. Assim o café se tornou uma das primeiras lavouras permanentes das pequenas e médias propriedades, gerando empregos no campo e movimento nas cidades que começavam a brotar.
Os capixabas, sobretudo, já dominavam o ofício. Traziam na memória o trato do grão e, na sacola, sementes de uma espécie teimosa: a Coffea canephora, o conilon, o robusta. Não era o arábica delicado das montanhas frias. Era um café de clima quente, de baixada úmida, de sol forte e seca de meio de ano — um café feito para resistir, à imagem de quem o plantava. A floresta recebeu a semente, e a semente entendeu a floresta.
A Capital do Café
Nos anos 1980, Cacoal já não era promessa. Era polo. Em torno dela formou-se o Polo Cafeeiro de Cacoal — reunindo também Espigão d’Oeste, Ministro Andreazza, Pimenta Bueno, Primavera de Rondônia e São Felipe d’Oeste. Eram quase setenta mil hectares de café, a primeira região produtora do estado. Cacoal e Pimenta Bueno guardavam as maiores áreas plantadas de Rondônia, e a cidade se firmou como praça: o lugar onde o grão chegava, era pesado, negociado e seguia viagem para o resto do Brasil e da Amazônia.
Foi nesse período que o apelido deixou de ser propaganda e virou identidade. Em 1987, a Lei Municipal nº 114, que criou os símbolos do município, gravou no hino de Cacoal uma frase que a cidade já sentia no peito:
“Do café és capital.”
Não era exagero — era retrato. Cacoal era a capital do café porque o café era a sua economia, o seu calendário, o seu cheiro de manhã. Era o que sustentava a escola onde os filhos estudavam, o comércio que crescia na rua principal e o sonho de um lugar que havia decidido existir.
A queda e a poda
Nenhuma história verdadeira é só de subida. O café rondoniense conheceu seus invernos: os preços oscilavam como cheia de rio, a produtividade era baixa e o grão rendia pouco. Cansados de apostar, muitos produtores trocaram o cafezal pelo pasto. Rondônia, que já teve cerca de duzentos mil hectares de café, viu a lavoura encolher.
Era preciso podar para crescer de novo — e foi o que aconteceu. A partir dos anos 2010 veio a virada técnica: as lavouras velhas deram lugar aos plantios clonais, com plantas selecionadas pelas melhores; vieram a poda certa, a adubação, a irrigação, a assistência técnica. E a terra respondeu. A produtividade média, que mal passava de nove sacas por hectare em 2011, ultrapassou as vinte sacas em 2017, alcançando, em propriedades bem manejadas de Cacoal, números muito superiores. Não era mais o café da sobrevivência. Era o café da inteligência.
O nascimento do Robusta Amazônico
Foi então que o velho conilon teimoso se transformou em outra coisa. Da seleção paciente de produtores e pesquisadores — em busca da planta mais produtiva e do grão de melhor sabor — nasceram clones com nome novo e orgulhoso: os Robustas Amazônicos. O mesmo café de baixada quente, agora com identidade, padrão e uma bebida que se reconhece de olhos fechados.
O reconhecimento veio em forma de selo. Em 1º de junho de 2021, o INPI registrou a Indicação Geográfica, na espécie Denominação de Origem, “Matas de Rondônia” — abrangendo quinze municípios, com Cacoal no coração da área. O Governo de Rondônia destacou o feito: era a primeira Denominação de Origem para café robusta sustentável do mundo.
Para entrar nessa denominação não basta plantar. É preciso estar na área delimitada, cultivar a Coffea canephora dos clones certos, manter cadastro na CAFERON e alcançar, na xícara, no mínimo oitenta pontos pela metodologia da Specialty Coffee Association — a fronteira do café especial, o ponto em que o grão deixa de ser commodity e passa a ser obra. O conilon que veio numa sacola do Espírito Santo, plantado por quem só queria provar que ficaria, virou café fino, de fama, de mundo.
O café que mora na floresta
Há uma camada ainda mais funda nessa terra: o café de Cacoal também é indígena. Na Terra Indígena Sete de Setembro, o povo Paiter-Suruí cultiva café especial sob a sombra da mata, em sistema agroflorestal, organizado em cooperativas e apoiado pela Coordenação Regional da Funai em Cacoal. Em 2022, o café de Wilson Nakodah, da etnia Paiter-Suruí, foi premiado no Concafé, realizado no Complexo Beira Rio, na própria cidade.
Ali o café deixou de ser apenas economia e virou território, cultura e pertencimento — prova de que é possível produzir sem derrubar, colher sem ferir, prosperar mantendo a floresta em pé. Em 2024, o Estado reconheceu o que a terra já sabia: pela Lei nº 5.722, o Café Robusta Amazônico foi elevado a Patrimônio Cultural e Imaterial de Rondônia. Não mais apenas um produto — um patrimônio, uma memória viva.
A lei que transformou memória em calendário
Reconhecer a importância histórica, econômica e cultural do café e do cacau exigia mais do que orgulho: exigia data, política pública e compromisso. Foi o que Cacoal fez em 2021.

Marco legal
Lei Ordinária nº 4.770/2021
Instituiu o Dia Municipal do Café e do Cacau, celebrado entre junho e julho de cada ano, e a Semana Municipal do Café e do Cacau. Não por acaso as duas culturas aparecem juntas: o cacau deu o nome à cidade, e o café deu a ela a identidade — a lei reúne, num só gesto, o começo e a consagração dessa história.
Objetivos da norma:

▸valorizar os produtores de café e de cacau;
▸incentivar políticas públicas voltadas ao setor;
▸promover o conhecimento técnico e profissionalizar a atividade;
▸fortalecer toda a cadeia produtiva;
▸destacar o papel do café e do cacau no desenvolvimento do município.

A Semana abriga eventos, cursos, fóruns e seminários — espaços em que o produtor aprende, o poder público escuta e a sociedade reencontra a própria origem. Mais do que uma data comemorativa, a Semana do Café e do Cacau é o reconhecimento oficial de uma história construída por mãos trabalhadoras — a maneira que Cacoal encontrou de dizer, todos os anos e em voz alta, de onde veio e por que continua de pé.
A cidade que o café ajudou a erguer
Olhe agora para a Cacoal de hoje. Talvez ela já não seja a maior produtora individual do estado — outros municípios cresceram. Mas continua sendo a capital histórica do café rondoniense: foi o polo pioneiro, o centro de comércio, a referência técnica e a vitrine de toda a transformação.

13,8 mil tcafé em grão colhido em 2023
R$ 139 mivalor da produção
4.230 haárea colhida

O café não saiu de cena — virou alicerce. E é aqui que a história se completa, porque o grão fez mais do que dar dinheiro: ele construiu cidade.
Foi do movimento do café que Cacoal se tornou polo comercial, a praça onde a região faz negócio e o dinheiro do campo vira loja, serviço e oportunidade. Foi sobre a estabilidade de uma economia de raiz que ela floresceu como polo de saúde, recebendo gente de dezenas de municípios em busca de cuidado. Foi com famílias que vieram para ficar — e ficaram — que cresceu como polo educacional, com escolas e faculdades formando os filhos e os netos daqueles primeiros colonos. E foi sem nunca esquecer a própria origem que se firmou como polo turístico: hoje o café vira roteiro, vira visita a sítios produtores, vira concurso, agroindústria familiar e xícara servida com orgulho — como o Café Don Bento, do Sítio Rio Limão, artesanal, premiado, feito de Robusta Amazônico e de paciência.
De cor, de sabor, de mata verde
A história do café em Cacoal cabe em quatro fases — e todas elas cabem numa xícara. Primeiro, a floresta: o cacau bravo, o telégrafo, o homem que deu o nome. Depois, a chegada: os anos 1970 e a semente que veio de longe para provar que alguém viera para ficar. Em seguida, o auge: os anos 1980, quando a cidade virou polo e o hino jurou que “do café és capital”. E, por fim, o presente: clones, qualidade, Robusta Amazônico, Denominação de Origem, café indígena e patrimônio cultural.
Cacoal é cor — o vermelho do fruto maduro contra o verde infinito das matas. Cacoal é sabor — oitenta pontos na xícara, fruto de mãos que aprenderam a esperar. E Cacoal é progresso — comércio, saúde, educação e turismo erguidos sobre a base de uma lavoura teimosa.
Mas, acima de tudo, Cacoal é gente. Gente que veio de longe, plantou o que demora e construiu, sobre uma cova de café, uma cidade inteira. A floresta recebeu a semente; a semente virou raiz; a raiz virou cidade. E a cidade, todo dia, ainda acorda com cheiro de café.
Cacoal — capital do café.
Ontem, por destino. Hoje, por escolha.

Daniel Paixão, para Tribuna Popular de Cacoal


Fonte: Tribuna Popular

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