spot_img

As mulheres votam mal?

Mulher votando (Imagem ilustrativa) Foto: Agência Brasil
Recentemente critiquei uma declaração de Paulo Figueiredo segundo a qual “mulher vota estatisticamente muito mal“, especialmente as solteiras. Minha resposta à pergunta do título: “As mulheres votam mal?“ é não, e pretendo demonstrar isso sob três perspectivas: Estatística, metodologia científica e responsabilidade política.
Alguns apenas ofenderam quem discordou, outros concordaram com ele, e alguns afirmaram que sua fala seria apenas uma constatação estatística, sem qualquer conteúdo ofensivo. Por amor ao debate, analisarei um pouco mais o tema.
1. A Estatística não diz quem vota “bem” ou “mal”
É verdade que diversos estudos identificam diferenças de comportamento eleitoral entre homens e mulheres. A Ciência Política chama esse fenômeno de “gender gap”. Em vários países, mulheres tendem, em média, a votar mais em candidatos de centro-esquerda ou esquerda, enquanto homens tendem, em média, a votar mais em candidatos conservadores. Também existem pesquisas mostrando diferenças entre o voto de mulheres casadas e solteiras.
Nada disso, porém, permite concluir que um grupo vote “bem” e outro vote “mal”. A Estatística descreve comportamentos, não faz juízos de valor. Dizer que votar na esquerda é votar “mal” não é uma conclusão estatística. É uma opinião política; legítima como opinião, mas que não pode ser apresentada como se fosse resultado científico.
Quem invoca os dados também deveria indicar quais pesquisas utilizou, qual metodologia foi empregada e quais evidências sustentam sua conclusão. Caso contrário, “estatisticamente” transforma-se apenas em argumento de autoridade.
2. Culpar o eleitor é confessar o próprio fracasso político
O principal problema que aponto não é metodológico, mas político. Mesmo que se admita a existência dessas diferenças estatísticas, permanece a pergunta principal: de quem é a responsabilidade quando um grupo político não consegue conquistar determinado eleitorado?
Sou conservador e, justamente por isso, acredito na responsabilidade individual. Se uma parcela significativa das mulheres não vota em candidatos conservadores, minha primeira reação não é concluir que elas “não sabem votar”. A pergunta correta é outra: por que os conservadores não conseguem convencê-las?
Em uma democracia, quem perde votos deveria perguntar por quais motivos não conseguiu convencer os eleitores, e não sustentar que eles votaram “errado”.
Transferir para o eleitor a responsabilidade pelo seu fracasso eleitoral contradiz justamente um dos princípios mais caros ao pensamento conservador: assumir a responsabilidade pelos próprios resultados.
Além disso, existe um problema prático. É difícil imaginar estratégia menos eficiente para conquistar votos femininos do que começar afirmando que as mulheres “votam mal”. Quem pretende governar precisa convencer, ouvir, respeitar e dialogar — não insultar aqueles cujo voto deseja conquistar.
3. Correlação não é causalidade
Outro erro metodológico bastante conhecido é confundir correlação com causalidade. O exemplo clássico é o aumento simultâneo do consumo de sorvetes e dos ataques de tubarão durante o verão.
Evidentemente, sorvete não provoca ataques de tubarão. Ambos os fenômenos apenas decorrem de uma terceira variável: o calor, que leva mais pessoas às sorveterias e aos banhos de mar.
O mesmo cuidado deve existir quando se afirma que mulheres casadas votam como seus maridos. Ainda que exista correlação estatística, isso não demonstra que o marido determine o voto da esposa. Existem inúmeras hipóteses igualmente plausíveis: marido e mulher podem compartilhar valores, enfrentar os mesmos desafios familiares ou simplesmente desenvolver prioridades semelhantes ao longo da vida em comum. A mulher casada, mercê de suas responsabilidades, pode valorizar pautas diferentes das que movem uma mulher solteira etc.
A Estatística identifica correlações. Demonstrar suas causas exige muito mais do que simplesmente selecionar a hipótese que mais favorece a conclusão desejada pelo emissor.
4. Existe alguém que saiba votar “bem”?
A afirmação de que “as mulheres votam mal” pressupõe que exista outro grupo que vote “bem”. Onde está a demonstração disso? Durante séculos, somente homens votavam. Isso impediu guerras, ditaduras, corrupção ou maus governos? Evidentemente não.
Antes de dizer que alguém vota mal, seria preciso responder objetivamente à pergunta: o que significa votar bem?
Em uma democracia, essa resposta jamais será consensual. Dois cidadãos honestos, bem informados e inteligentes podem analisar os mesmos fatos e chegar a conclusões completamente diferentes. Isso não significa que um seja incapaz de votar. Significa apenas que a política existe justamente porque pessoas livres pensam de maneira diferente.
Quando um segmento importante do eleitorado rejeita determinado grupo político, a reação madura não é desqualificar os eleitores, mas compreender por que eles não foram convencidos.
Conclusão
Mais preocupante do que uma declaração isolada é que tantas pessoas a tenham tratado como se fosse uma conclusão científica. Quem sustenta essa tese confunde opinião política com ciência, correlação com causalidade e acaba transferindo ao eleitor a responsabilidade pelo fracasso eleitoral de quem não conseguiu convencê-lo.
As mulheres sabem votar, sim. Tal como os homens, podem fazer boas ou más escolhas, conforme seus valores, prioridades e visão de mundo, mas votar em A ou B é um direito. Dizer que o voto “certo” é o voto igual ao próprio é um misto de arrogância e ingenuidade. Em uma democracia, não existe voto “errado”. Existe voto conquistado ou não conquistado.
Voto é confiança conquistada. Quem culpa o eleitor pelo próprio fracasso demonstra apenas que ainda não compreendeu a regra mais elementar da democracia.


Fonte:

+Notícias

Últimas Notícias