Lula Foto: Ricardo Stuckert / PR
Ao longo da minha vida pública, sempre me posicionei contra a liberação dos jogos de azar no Brasil. Não por desconhecer a realidade, mas justamente por conhecê-la. Sempre alertei que o jogo não seria uma solução econômica; seria a criação de um novo problema social em um país que já enfrenta tantos desafios relacionados à dependência, ao endividamento e à vulnerabilidade das famílias.
A história mostrou aquilo que eu vinha alertando. As chamadas “bets” nada mais são do que a modernização do velho jogo de azar, agora acessível na tela de um celular.
Esse processo começou com a Lei nº 13.756/2018, que permitiu as apostas esportivas de quota fixa, e avançou com uma regulamentação mais ampla em 2023, durante o governo Lula, por meio da Lei nº 14.790. O argumento apresentado foi o de arrecadação e controle do mercado, mas uma pergunta essencial foi deixada de lado: qual seria o impacto dessa atividade na vida das famílias brasileiras?
O resultado está diante dos nossos olhos. Influenciadores, artistas e atletas passaram a atuar como grandes vitrines desse mercado, vendendo a promessa de dinheiro fácil para milhões de brasileiros.
A expectativa de ganho rápido encontrou justamente aqueles que mais precisam de proteção: pessoas endividadas, jovens e famílias de baixa renda.
Inclusive, um levantamento do Procon-SP apontou que quatro em cada dez apostadores entrevistados relataram endividamento após o uso de plataformas de apostas online.
Não estamos falando apenas de entretenimento; estamos diante de uma questão social que envolve saúde mental, economia familiar e responsabilidade pública.
Alem disso, o futebol, que deveria representar celebração, emoção e integração, passou a conviver com uma dúvida incômoda. As apostas vieram para fortalecer o esporte ou o esporte passou a ser utilizado para fortalecer a indústria das apostas?
A presença massiva das marcas de bets em camisas, transmissões e campanhas publicitárias transformou a paixão nacional em um grande comércio.
A própria CPI das Bets no Senado revelou a gravidade do problema ao investigar suspeitas envolvendo publicidade enganosa, atuação de influenciadores e possíveis irregularidades no setor. O relatório final apontou medidas e responsabilizações para investigados. Ainda assim, a Comissão não entregou o resultado que muitos esperavam.
Agora, depois de permitir o avanço desse mercado, o governo anuncia restrições à publicidade e a inclusão de alertas sobre riscos e perdas financeiras. Ou seja, repetimos uma lógica já conhecida. Primeiro permite-se a expansão do problema, depois tenta-se remediar os danos.
No entanto, eu considero a prevenção o caminho mais responsável. Quando o Estado estimula uma atividade que pode gerar dependência e, posteriormente, precisa criar barreiras para conter seus efeitos, fica evidente que faltou prudência no início.
Até porque, o Brasil não precisa de uma máquina de ilusões vendendo a esperança de enriquecimento fácil. Precisamos de emprego, educação financeira, oportunidades e políticas públicas que valorizem o esforço de quem trabalha.
O problema é que, muitas vezes, o governo cria a porta de entrada para aquilo que traz prejuízos à sociedade e, depois, aparece tentando administrar as consequências.

