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O que as canetas emagrecedoras do Paraguai nos revelam sobre a nossa sociedade?

Caneta emagrecedora (Imagem ilustrativa) Foto: Freepik
Ultimamente, em todos os lugares para onde olho, vejo notícias de lotes e mais lotes de canetas emagrecedoras apreendidos, vindos do Paraguai. Quase todos os dias também chegam ao consultório pacientes em uso da bendita “TG”.
O que isso nos revela enquanto sociedade?
Atendo obesidade desde os anos 2000, e esse não é um paradigma novo. Os medicamentos antiobesidade sempre foram vistos pela sociedade como algo “proibido”, alvo de inúmeros preconceitos e beirando o “ilícito”. O médico que os prescreve, não raro, também é visto com suspeita (eu sei bem o que é isso!).
Mas por que isso acontece?
Existem, na verdade, causas sociais e econômicas profundas por trás desse fenômeno.
Do estigma da obesidade ao estigma do tratamento
Quando comecei a atender obesidade, os medicamentos disponíveis eram basicamente inibidores de apetite, com ação sobre o sistema nervoso central, frequentemente chamados de forma genérica e imprecisa pela imprensa de “anfetaminas”.
Essa já era uma maneira de desvalorizar medicamentos que, naquela época, estavam entre os poucos recursos disponíveis para ajudar pessoas com excesso de peso. Falava-se pouco sobre obesidade como doença crônica e muito sobre “força de vontade”.
Em suma, não bastava o indivíduo ser estigmatizado por ter obesidade. Se buscasse tratamento, passava também a ser visto como “drogado”.
Naqueles distantes anos 2000, não raro víamos o mesmo filme que passa hoje: batidas, apreensões, manchetes de escândalo e uma atmosfera de suspeita em torno de qualquer tentativa farmacológica de tratar a obesidade.
Evoluímos muito nos últimos 20 anos, tanto em termos científicos quanto sociais. Ainda assim, fortes evidências desse preconceito contra os medicamentos antiobesidade permanecem e ressurgem, como uma fênix, a cada nova geração de tratamentos.
“É mais fácil esmagar um átomo que um preconceito”; dizia Einstein.
Obesidade: uma doença subtratada, subdiagnosticada e subvalorizada
A atual onda de apreensões de canetas emagrecedoras vindas do Paraguai não surgiu do nada. Ela se alimenta justamente dessa mistura de desinformação, estigma, dificuldade de acesso e desejo por soluções rápidas.
De um lado, temos pacientes que não querem ou não conseguem acessar os tratamentos regulamentados disponíveis, seja pelos custos, pela burocracia ou pela ausência da devida prescrição médica. Essas pessoas acabam buscando alternativas mais baratas ou aparentemente mais fáceis, muitas vezes sem saber exatamente o que estão usando.
Do outro lado, existe um mercado paralelo que se aproveita da vulnerabilidade dessas pessoas, oferecendo produtos de origem incerta, sem garantia de qualidade e, muitas vezes, com rótulos que imitam medicamentos reconhecidos, mas que não passaram pelo crivo das autoridades sanitárias.
Não é objetivo deste artigo julgar individualmente quem compra ou vende esses produtos, nem entrar em detalhes técnicos sobre marcas. Nada disso. O ponto é refletir sobre o que esse fenômeno revela: a obesidade continua sendo uma doença invisível: subtratada, subdiagnosticada e subvalorizada.
Dessa forma, quando o tratamento legítimo não é suficientemente acessível, previsível e acolhedor, o mercado informal ocupa, e com vontade, o vazio deixado.
Acolher o paciente que já fez uso desses produtos, evidentemente, não significa recomendar, legitimar ou normalizar medicamentos de origem desconhecida ou sem controle sanitário.
O que se busca, de verdade, no Paraguai
A existência de uma agência reguladora forte, como a Anvisa, não é um luxo. É um mecanismo fundamental de proteção da população.
Sem critérios claros de eficácia, segurança, farmacovigilância e controle de qualidade, o paciente fica ainda mais vulnerável — do que já é — a promessas enganosas e riscos despercebidos.
Ao mesmo tempo, os órgãos reguladores precisam dialogar com a realidade social e econômica do nosso país. Quando existe um abismo entre aquilo de que o paciente necessita e aquilo a que consegue ter acesso pelos caminhos formais, o caminho informal deixa de ser exceção e passa a ser regra para uma parcela significativa da população.
Quando um paciente recorre a uma caneta emagrecedora fora dos canais tradicionais, muitas vezes não está apenas em busca de algo “mais em conta”. Ele, ou ela, também está tentando fugir do julgamento e da discriminação dos quais foi alvo durante toda a vida.
No consultório, recebo muitas pessoas em uso de canetas “alternativas” que demonstram surpresa ao serem acolhidas. Pessoalmente, considero que essas pessoas também merecem acompanhamento médico, exames, orientações e avaliação periódica da composição corporal.
Quantas vezes atendemos pacientes que usam um medicamento para o colesterol, um ou mais para a hipertensão e outro para o pré-diabetes, mas que jamais tiveram a questão do peso abordada clinicamente?
Na ausência de um diagnóstico e de uma prescrição, que o acompanha, como esse indivíduo poderá se tratar?
Isso, para mim, prova que, enquanto sociedade, nos habituamos a tratar os sintomas e ignorar a causa. E não apenas no caso da obesidade, vale dizer.
O que aprendemos com tudo isso?
Por décadas, o indivíduo com obesidade foi visto como alguém “sem autocontrole”, “que não se esforça” ou “sem disciplina”, e não como portador de uma doença complexa, multifatorial e crônica.
Uma doença influenciada por escolhas, é claro, mas com uma base biológica e genética importante, e que precisa de cuidado, tratamento e de um olhar diferente por parte da sociedade e das autoridades.
Se, como sociedade, continuarmos tratando o uso legítimo de medicamentos antiobesidade como algo suspeito e a obesidade como “falta de vergonha na cara”, continuaremos empurrando pessoas para soluções fora do circuito oficial.
A polêmica das canetas do Paraguai é apenas um espelho. Um espelho que nos mostra o quanto ainda precisamos amadurecer — e muito — na forma de encarar a obesidade.


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