Desmate potencial com o fim da Moratória pode gerar perdas de US$ 831,6 milhões como consequência da redução de chuvas para a agricultura — Foto: Lucas Nunes/Famato
O desmatamento que pode ocorrer como consequência do fim da Moratória da Soja é capaz de gerar prejuízos à sociedade de pelo menos US$ 8,2 bilhões nos próximos dez anos, em perdas de serviços e valores ecossistêmicos, projeta a organização WWF-Brasil.
O cálculo baseia-se na estimativa, publicada neste mês na revista Science, segundo a qual o fim do acordo ambiental tem potencial de levar ao desmatamento de 1,4 milhão de hectares na Amazônia.
O montante da perda econômica foi calculado com base em estudos econométricos que atribuem valores aos serviços ecossitêmicos da floresta, como geração de chuva e preservação de biodiversidade.
Segundo o estudo da WWF-Brasil, o desmate potencial com o fim da Moratória pode gerar perdas de US$ 831,6 milhões como consequência da redução de chuvas para a agricultura, perdas de US$ 300 milhões a US$ 400 milhões no setor elétrico decorrentes da diminuição da vazão hidrelétrica e perdas de US$ 7 bilhões associadas à destruição da biodiversidade.
O estudo não considerou o quanto o Brasil pode deixar de vender soja com a perda de acesso a mercados que exigem o cumprimento das regras da Moratória, nem considerou o quanto deixa-se de ganhar, por exemplo, com créditos de carbono gerados pela preservação da vegetação nativa.
“Preferimos não considerar o [mercado de] carbono por ele ser precificado de formas muito diferentes e ter uma complexidade envolvida”, afirmou Tiago Reis, especialista em Conservação da WWF-Brasil.
Para calcular as perdas decorrentes apenas da redução das chuvas na produção agrícola, a WWF-Brasil levou em conta um estudo deste ano publicado na Nature Communications Earth & Environment, segundo o qual cada hectare de floresta amazônica leva a um volume de chuvas de 3 milhões de litros por ano, o que gera um serviço de irrigação natural no valor médio de US$ 59,40 por hectare ao ano. “Quem paga esse custo é o produtor rural”, alertou Reis.
Para calcular as perdas no setor elétrico, a WWF-Brasil adotou a metodologia de um levantamento feito em 2025 pelo Climate Policy Initiative (CPI), que calculou o quanto a redução dos “rios voadores” formados nas áreas de vegetação natural na Amazônia afetam o abastecimento das bacias que garantem a geração de energia nas usinas de Itaipu, Belo Monte e Jirau.
A organização utilizou os dados do estudo do CPI para estimar o quanto cada hectare de floresta preservada na Amazônia contribui para manter a vazão dos rios e evitar perdas de geração elétrica nessas usinas.
Para calcular a perda econômica que pode ocorrer com a perda de biodiversidade, a organização utilizou a metodologia de um estudo publicado na Science em 2025, que considera o potencial de elementos da floresta para a produção de fármacos, o desenvolvimento de biotecnologia, o melhoramento genético e a adaptação climática.
A estimativa considerou ainda a importância econômica da manutenção de elementos da floresta para serviços de polinização, controle biológico, resiliência de ecossistemas e estabilidade de serviços como carbono e chuva.
“[O cálculo] é muito conservador, porque nos estudos que usamos com base, são considerados só os valores da biodiversidade de produtos que já são comercializados. Não estamos considerando produtos que ainda nem descobrimos”, afirmou Reis. Também entrou na conta dos impactos econômicos da biodiversidade o quanto sua manutenção reduz riscos sistêmicos, como de colapsos ecológicos, quebras abruptas de produtividade e perdas econômicas em cascata.
Os pesquisadores olharam para o passado e calcularam quando a Moratória da Soja gerou em valor econômico de serviços ecossitêmicos. De 2006 a 2016, o acordo gerou US$ 10,27 bilhões em benefícios econômicos diretos e mensuráveis, de acordo com o estudo.
Segundo Reis, as perdas potenciais decorrentes do desmatamento serão arcadas em parte pelos produtores rurais, com as quebras de safra decorrentes da redução das chuvas, mas também haverá custos que a sociedade terá que cobrir. “E, no caso da biodiversidade, é [uma perda] para o mundo todo”, observou.
O estudo considera que as perdas seriam proporcionais a cada hectare desmatado, mas não leva em conta se o desmate levaria a floresta a atingir “pontos de não retorno”. Nesse caso, “o regime climático que mantém a floresta com suas funções ecológicas se altera de forma tão significativa que ela deixa de ser o que é hoje”, disse.
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Fonte: Extraderondonia.com.br

