Brasil contra o feminicídio Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
No Brasil, homens matam mulheres todos os dias — não como exceção, mas como uma repetição quase burocrática da tragédia. É o tipo de rotina que ninguém assume, mas que todos, de algum modo, toleram.
Há algo de profundamente perturbador nessa insistência: como se a violência fosse menos um descontrole e mais um hábito mal resolvido, uma forma distorcida de afirmar poder diante daquilo que os desafia — ou os revela.
O discurso público finge surpresa, mas a intimidade dessas histórias diz outra coisa. Fala de homens que não suportam a autonomia feminina, que confundem desejo com posse, e que, incapazes de lidar com as próprias fissuras, escolhem eliminá-las no corpo do outro.
Não é apenas ódio — é um desconforto mais íntimo, mais embaraçoso, que raramente é nomeado porque exigiria um tipo de honestidade que poucos estão dispostos a sustentar.
E então há o sistema, esse grande álibi coletivo. Leis que não intimidam, punições que não encerram nada, uma sensação difusa de que sempre há uma segunda chance — até para quem tirou a última de alguém.
Nesse cenário, a violência não é um desvio: é quase uma extensão lógica. E talvez o mais inquietante seja isso — não a brutalidade em si, mas a naturalidade com que ela se repete.

