Gracyanne Barbosa Foto: Webert Belecio / AgNews
Gracyanne Barbosa, em recente entrevista, revelou que utilizou o Mounjaro com o propósito de perder 10 quilos para um papel, mas acabou emagrecendo “apenas 4 quilos” e que, com isso, terminou perdendo o papel. Eu achei esse tema muito interessante porque ele reacende o debate sobre a indicação e, principalmente, sobre as expectativas diante desses tratamentos individualizados com as chamadas canetas emagrecedoras, como Mounjaro, Wegovy e outras.
Antes de mais nada, tenho que dizer com absoluta clareza: eu não tenho a menor possibilidade, enquanto médico, de avaliar se a utilização do Mounjaro pela Gracyanne era indicada ou não. Para isso, eu precisaria tê-la atendido, ter acesso aos seus dados, seu histórico de saúde e, principalmente, à sua bioimpedância, para saber exatamente qual é o seu percentual de gordura e a sua composição corporal. Como médico, eu sou proibido de fazer diagnóstico com base em achismo. Só com os dados do paciente na mão eu consigo ter algum posicionamento.
Isto posto, vamos ser muito sinceros: para uma grande parte da população brasileira, perder 4 quilos já é muita coisa! Tem muita gente lendo essa reportagem sobre a Gracyanne e pensando: “Puxa, eu queria perder 4 quilos, já estaria feliz”. Só que, para a Gracyanne, esse resultado gerou frustração, porque a expectativa dela era outra: a de perder 10 quilos!
Ora, perder 4 ou 5 quilos por mês é algo do dia a dia do consultório. O resultado dela está bem dentro da média. Então, a princípio, não deveria ser motivo de frustração, mas sim de comemoração, penso eu, para uma boa parte dos brasileiros que estão acima do peso.
Existe, claro, uma grande margem de variabilidade individual no uso dos remédios. Na semana que passou, houve paciente que perdeu 2 quilos e estava muito feliz e satisfeita. E teve paciente que perdeu 12 quilos e estava com um sorriso de orelha a orelha. Mas o mais importante não é simplesmente perder peso na balança. O mais importante é saber: essa perda foi saudável? E, por saudável, entenda-se: é sustentável no médio e longo prazo?
Isso depende muito do próprio paciente ser capaz de usar o tempo do remédio, o tempo da medicação, para reestruturar hábitos. E, mais do que tudo, incorporar a atividade física à sua rotina, à sua prática do dia a dia.
Quando eu digo que a paciente que perdeu 2 quilos estava feliz, existe um contexto claro aí. A “lei da vida”, como eu digo para os meus pacientes, é engordar. Então, se perdeu peso, é sinal de que o remédio já está fazendo efeito, já está gerando alguma modificação no organismo da pessoa. Porque, se deixar abandonado, o paciente com sobrepeso/obesidade naturalmente engorda, pois o organismo dele já está metabolicamente condicionado a engordar.
Algo que me chamou muita atenção no relato da Gracyanne foi o fato de ela mencionar que o remédio não tirou a sua fome. A despeito disso, ela eliminou 4 quilos. Aí existe uma questão importante: nenhuma dessas canetas tira a fome. A pessoa se alimenta normalmente. Esses medicamentos são sacietógenos, ou seja, aumentam a saciedade.
O que isso significa na prática? Significa que a pessoa come e se sente satisfeita mais rápido. Eles são diferentes dos medicamentos antigos, que funcionavam mais como inibidores de fome. Fome é procurar comida; saciedade é se sentir satisfeito com a comida que se tem.
Então, a despeito de o medicamento não ter “tirado a fome”, os 4 quilos “evaporaram”. Isso é sinal de que houve alguma ação do medicamento sim, embora talvez não percebida por ela da forma como esperava, ou talvez uma ação que não correspondeu à idealização que ela tinha a respeito do medicamento.
O episódio de Gracyanne tem muito a nos ensinar sobre a maneira como nos relacionamos com o peso, com as expectativas que depositamos nos tratamentos e com o papel das novas medicações antiobesidade. Nas palavras de um professor muito querido, hoje já falecido: “Remédio é para ser prescrito por quem sabe e usado por quem precisa”. Simples assim.

