Oficiais nazistas: Richard Baer, Josef Mengele (ao centro), Rudolf Hoess, em Auschwitz Foto: Domínio púlico
Enquanto a comunidade internacional clamava por justiça, um dos criminosos de guerra mais procurados da história vivia anonimamente sob o Sol brasileiro. Josef Mengele, o infame “Anjo da Morte” de Auschwitz, encontrou no Brasil seu último refúgio — e seu túmulo.
Mengele sabia que a Alemanha nazista havia perdido a guerra. Para evitar a captura e o julgamento em Nuremberg, ele rapidamente adotou o pseudônimo de Wolfgang Gerhard.
Em 1961, após passagens pela Argentina, Uruguai e Paraguai, Josef Mengele cruzou a fronteira brasileira sob o pseudônimo de Peter Hochbichler. Não foi uma escolha aleatória: o Brasil, com suas vastas áreas rurais e comunidades de imigrantes europeus, oferecia o anonimato perfeito para quem carregava o peso de mais de 1 milhão de mortes nas costas.
Por décadas, historiadores como a suíça Regula Bochsler lutaram para acessar arquivos sobre a passagem de Mengele pela Europa — especialmente na Suíça, onde há indícios de que ele tenha passado férias com seu filho, Rolf, nos Alpes, em 1961.
Em 2025, após pressão pública e financiamento coletivo, o governo suíço anunciou a liberação parcial dos documentos — embora com censuras justificadas por “segurança nacional”.
Especialistas alertam que os arquivos podem revelar não apenas rotas de fuga, mas também conexões financeiras entre nazistas e instituições bancárias “neutras”.
Muitos desses especialistas dividem-se sobre o conteúdo esperado. Alguns acreditam que os arquivos mostrarão, em detalhes, a rede de apoio que permitiu Mengele transitar livremente pela Europa enquanto deveria ser um dos homens mais caçados do mundo. Outros apontam que a Suíça teme revelar não apenas sua leniência com nazistas, mas também o papel de seus bancos “neutros” no acolhimento de ouro e dinheiro hitleristas.
Há ainda quem compare o caso aos arquivos de Jeffrey Epstein: documentos que, quando divulgados, podem vir pesadamente censurados para proteger instituições e indivíduos poderosos. Independentemente disso, a liberação representa uma vitória para historiadores e para a memória histórica.
No Brasil, a abertura de arquivos sobre a presença nazista ainda é tímida. Historiadores apontam a necessidade de investigações mais profundas sobre como criminosos de guerra conseguiram viver impunemente por tanto tempo em território nacional.
Em suma, mais do que um relato biográfico, a vida de Mengele no Brasil é um convite à reflexão sobre memória, impunidade e responsabilidade histórica. Enquanto arquivos são abertos e novas evidências emergem, cabe à sociedade garantir que as lições do passado não sejam esquecidas — e que a justiça, mesmo tardia, nunca seja silenciada

