Pesquisas Eleitorais ou peças de Marketing? O teatro sem controle em Rondônia
Em tempos de pré-campanha, um fenômeno curioso — e preocupante — volta a ganhar força em Rondônia. A proliferação semanal de "pesquisas eleitorais" que mais parecem peças publicitárias disfarçadas de ciência.
Não é de hoje que esse tipo de prática levanta suspeitas. Basta lembrar o episódio da eleição municipal de Porto Velho, há dois anos, quando uma coluna do Espaço Aberto expôs inconsistências gritantes em uma pesquisa divulgada à época. Os números não apenas destoavam da realidade percebida nas ruas, como careciam do básico: transparência metodológica.
Na ocasião, não foram levantados pontos elementares que qualquer levantamento sério deveria apresentar — perfil dos entrevistados, distribuição geográfica, faixa etária, renda, nível de escolaridade, condição de emprego. Nada disso aparecia com clareza. Resultado: o material foi parar na Justiça Eleitoral, serviu como base para questionamento formal e acabou retirado das redes sociais por decisão judicial.
Ou seja, não era "opinião". Era problema concreto. Maracutaia para forjar resultados e enganar o eleitor.
Avançamos dois anos e o cenário parece repetir o mesmo roteiro — talvez até mais sofisticado, mas não mais confiável. Toda semana surge um novo instituto, um novo levantamento, uma nova manchete anunciando reviravoltas espetaculares, candidaturas "decolando", nomes "consolidados" ou "em crescimento acelerado".
E o que acompanha esses números? Vídeos produzidos por inteligência artificial, narrativas infladas, estética de propaganda e zero aprofundamento técnico. É aqui que mora o perigo.
Porque pesquisa eleitoral séria não é palpite, não é torcida e muito menos ferramenta de manipulação psicológica do eleitor. É método. É rigor. É custo. E principalmente: é responsabilidade.
Quando o que se apresenta ao público se resume a "X municípios pesquisados" e "Y entrevistados", sem detalhamento consistente, sem transparência mínima, sem lastro técnico verificável, o que se tem não é pesquisa — é narrativa.
E narrativa, em política, pode ser arma. Mais grave ainda é o uso deliberado dessas peças para construir uma sensação artificial de força. Isso cria uma realidade paralela onde candidatos frágeis parecem imbatíveis e nomes irrelevantes surgem como fenômenos eleitorais.
Não existe milagre estatístico. Não existe "virada extraordinária" sem fato político relevante que a sustente. Quando isso aparece do nada, com trilha sonora, edição chamativa e números mágicos, o alerta deve soar alto. Muito alto.
Outro ponto que merece atenção — e aqui vai um recado direto — é o custo dessas supostas pesquisas. Levantamentos minimamente sérios, com equipe treinada, logística adequada e metodologia consistente, têm preço. E não é baixo. Se estão oferecendo "pesquisa completa" por valores muito abaixo do razoável, o problema não é economia. É credibilidade. Ou melhor: a falta dela.
O eleitor precisa entender que está diante de um ambiente onde nem tudo que parece dado técnico é, de fato, informação confiável. E os próprios candidatos também deveriam refletir antes de se apoiar em números fabricados para alimentar ego ou estratégia. A realidade das urnas não aceita maquiagem.
O momento exige vigilância. Da imprensa, da Justiça Eleitoral, dos partidos — e principalmente do cidadão. Porque quando a mentira começa a ser apresentada como estatística, a democracia deixa de ser disputa e passa a ser encenação. E Rondônia merece coisa melhor do que isso.
Cautela nunca é excesso: quem ouve sem filtro vira presa fácil de opiniões bem embaladas e intenções mal disfarçadas.
— Cícero Moura





