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Quando a ofensa vira entretenimento

(Imagem ilustrativa) Foto: IAChat GPT
Há alguma coisa de profundamente doente numa multidão que decide transformar uma mulher em saco de pancadas emocional de um estádio inteiro. Não importa se você gosta da Virginia Fonseca, se acompanha seus vídeos ou se revira os olhos toda vez que ela aparece na sua timeline. O que aconteceu no Maracanã não foi crítica. Foi aquele velho espetáculo nacional em que uma mulher vira alvo coletivo porque as pessoas descobriram que humilhar alguém em coro produz uma sensação temporária de pertencimento.
Existe uma misoginia moderna que aprendeu a usar maquiagem intelectual. Ela não chega mais vestida de vilã de novela. Ela chega dizendo que é “só brincadeira”, “só zoeira”, “só opinião”. Mas continua sendo a mesma pulsão primitiva: a necessidade de ver uma mulher constrangida em praça pública.
Curioso como tanta gente que passa o dia discursando sobre empatia, respeito e saúde mental encontra uma energia quase olímpica quando surge a oportunidade de gritar obscenidades para uma mulher diante de milhares de pessoas. A civilização é uma camada muito fina de pó compacto. Basta um estádio lotado para ela escorrer.
E o mais melancólico é que, enquanto a torcida gritava o nome dela como ofensa, acabava provando exatamente o contrário do que pretendia. Porque ninguém gasta tanta raiva com alguém irrelevante. Há um ressentimento muito específico reservado às mulheres que ocupam espaço demais, ganham dinheiro demais, aparecem demais e não demonstram a culpa que se espera delas.
No fim, aqueles gritos diziam menos sobre Virginia e muito mais sobre quem os entoava. Eram milhares de pessoas tentando diminuir uma mulher — e conseguindo apenas revelar o próprio tamanho.


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