Janja, Lula e Gleisi Foto: Ricardo Stuckert
Se houve uma obra consistente ao longo de duas décadas de Partido dos Trabalhadores, foi a de transformar a política em um mecanismo de autoperpetuação travestido de justiça social. Sob o verniz moral de redenção histórica, ergueu-se uma máquina em que o Estado deixou de ser instrumento da sociedade para se tornar patrimônio de um projeto de poder. Escândalos não foram desvios — foram método. E a retórica da virtude serviu, repetidas vezes, como escudo para práticas que, em qualquer outra circunstância, seriam chamadas pelo nome correto: abuso, aparelhamento e corrupção.
A economia, por sua vez, foi tratada como território ideológico, não como realidade concreta. Intervenções desastrosas, irresponsabilidade fiscal e populismo travestido de política pública produziram crescimento artificial seguido de ressaca prolongada — sempre paga pelo cidadão comum. A promessa de prosperidade virou inflação, endividamento e perda de confiança. E ainda assim, diante dos resultados, insistiu-se na narrativa de que o problema jamais era o modelo, mas sempre “o outro”: o mercado, a imprensa, a oposição, qualquer um que ousasse apontar o óbvio.
O mais inquietante, contudo, não foi apenas o que se fez, mas o que se normalizou. A erosão de padrões éticos, a relativização constante do certo e do errado, e a ideia de que fins supostamente nobres justificam qualquer meio. Vinte anos depois, o legado mais duradouro talvez não esteja nas obras ou nos números, mas na cultura política que ficou: uma em que o poder se protege, a responsabilidade se dilui e a verdade se negocia. E isso, mais do que qualquer crise econômica, é o que cobra o preço mais alto de uma nação.

