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Quem é o mesmo?

Placa de aviso na porta do elevador Foto: VB
Moro em apartamento. Então, todos os dias me questiono: “Quem é o mesmo, mesmo?” Pois é, não sei se acontece com você, mas eu fico encasquetada com a plaquinha que há na porta dos elevadores. Já reparou? “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar”.
Essa minha “encasquetação” não é de hoje. Desde a primeira vez que vi a bendita plaquinha, uma luz se acendeu e passei a questionar quem era o “mesmo”. Um moço bonito talvez?
Brincadeiras à parte, a famosa plaquinha do elevador nos dá um ótimo motivo para fazer algo que sempre incentivo: recorrer ao bom e velho dicionário. Sim, ele continua sendo um dos melhores amigos de quem gosta de português e quer escrever melhor.
Logo, se você procurar a palavra “mesmo”, descobrirá algo curioso: ela pode pertencer a diferentes classes gramaticais, dependendo do contexto. Ou seja, muda de função conforme a frase.
Em muitos casos, “mesmo” funciona como pronome demonstrativo, geralmente com sentido de reforço, equivalente a “próprio”. Veja: “Foi o CEO mesmo quem chamou a atenção do funcionário.” Aqui, “mesmo” significa o próprio CEO.
Em outros momentos, “mesmo” é um advérbio, reforçando uma ideia, com sentido de “realmente”, “de fato” ou “até”. Note: “Ele gostou mesmo da surpresa.”
Nesse caso, “mesmo” poderia ser substituído por “realmente”. Ou ainda: “Ela estava cansada, mas mesmo assim conseguiu terminar o trabalho.”
Também há situações em que “mesmo” aparece como substantivo, indicando algo equivalente ou semelhante. Olhe só: “Trocar café por água às seis da manhã é o mesmo que pedir para meu cérebro entrar em greve.” Dramático? Talvez. Mentiroso? Jamais.
E quem nunca usou a expressão “dar no mesmo”? Afinal, em certas situações, escolher uma coisa ou outra leva exatamente ao mesmo resultado. Por exemplo, “Sair às 7h10 ou às 7h15 acaba dando no mesmo, porque o trânsito já estará parado.”
Muita coisa para uma palavrinha só, não é?
Mas então surge a pergunta: se “mesmo” pode ser tudo isso, por que aquela frase do elevador soa tão estranha? Porque o que deveria haver ali é um pronome pessoal, um “ele”.
Segundo a gramática, “o mesmo” não deve ser usado como substituto de pronomes pessoais, como “ele/ela”, “eles/elas”. Então, o certo seria: “Antes de entrar no elevador, verifique se ele se encontra…”
E por que a placa é escrita assim? Em 1977, a cidade de São Paulo criou uma lei exigindo esse aviso nas portas dos elevadores e o texto veio exatamente desse jeitinho. Claro, a informação é necessária e evita acidentes, embora escrita errada.
Mas, para completar… outros municípios souberam, gostaram da ideia e “criativamente” copiaram a frase do mesmo jeitinho. Hoje, a lei existe em diversos estados e cidades do país. E se, não for cumprida, gera multa ao “proprietário” do elevador…
Penso que esse é um dos casos em que um erro de português ganhou passe livre; assim, desfila todos os dias diante dos nossos olhos…
Então, preciso confessar algo além da gramática… Dia desses, conversando com uma amiga querida, chegamos a uma interpretação bem particular. Talvez, antes de entrar em certas relações, também valha a pena verificar se “o mesmo” se encontra parado no andar.
Em bom português: será que aquela pessoa está mesmo acessível? Será que está no mesmo andar das nossas expectativas? Porque, às vezes, insistimos em apertar o botão de um elevador que simplesmente não está ali, captou?
Espero ter ajudado, um abraço e até a próxima!
 
Em tempo: muito obrigada pelo carinho e generosidade com que vocês acolheram minhas palavras na semana passada. Agradeço de coração.
E, se você vir uma plaquinha com algo de errado escrito por aí, mande para mim. Vamos conversar sobre. Pode ser?


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