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O desserviço de Janja

Janja da Silva Foto: Frame de vídeo / YouTube / UOL
A proposta da minha coluna sempre foi esclarecer problemas da língua portuguesa e de comunicação. Assim, desde o princípio, tenho falado da importância de usarmos o dicionário para sabermos exatamente o que cada palavra significa. Por isso, permita-me, caro leitor, mais uma vez, falar de dicionário, Janja e misoginia; não necessariamente nessa ordem.
Semana passada, a atual primeira-dama deu uma entrevista na qual disse que a fama de “gastadeira” que possui é “exemplo de misoginia pura”. Em texto já publicado, falei sobre misoginia, palavra que vem sendo bastante debatida por causa do projeto de lei que pretende criminalizar práticas misóginas.
Mas vamos ao dicionário? Segundo o Aulete Digital, misoginia é o desprezo, a aversão às mulheres. Também é a aversão mórbida do homem ao contato sexual com mulheres. Sabendo disso e ouvindo Janja, mais uma vez eu disse: “Por favor, de novo não…”
Veja, o projeto de lei traz o seguinte texto: “Serão punidos, na forma desta lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito por práticas misóginas”. E explica: “A misoginia consiste em discriminação, preconceito, propagação do ódio ou aversão e afins, praticados contra mulheres por razões da condição de sexo feminino”.
Por isso, questiono: onde está a misoginia em se questionar os gastos da primeira-dama? Se quem estivesse no poder fosse uma presidente e tivéssemos um primeiro-cavalheiro, não seria válido questionar os gastos dele? Até porque os gastos, no caso, são praticados com o dinheiro suado do contribuinte. Pedir contas do uso desse dinheiro seria misoginia? Não, não seria.
Percebe? Mais uma vez, Janja fala sem consultar o dicionário. E isso é muito triste.
Mas há mais por trás dessa falácia. O problema não é apenas um erro de vocabulário. É um desserviço justamente às mulheres que realmente enfrentam a misoginia.
Se o projeto de lei foi proposto para proteger mulheres vítimas de preconceito, discriminação ou ódio por serem mulheres, usar esse termo para qualquer crítica acaba enfraquecendo o próprio conceito que se pretende preservar.
Sim, é fato: há milhares de mulheres que sofrem, todos os dias, em casa, no trabalho, por onde vão, situações verdadeiramente misóginas. Quem diz que isso não acontece é tolo, porque acontece, sim! Há grupos, conversas e ideias que são, de fato, misóginos; pior: independem de espectro político.
Recentemente, por exemplo, um comentarista de direita afirmou que “as mulheres votam estatisticamente mal”, especialmente as solteiras. Se essa fala não é misógina, eu sinceramente não sei o que mais pode ser.
Infelizmente, nós, mulheres, precisamos, sim, de proteção; precisamos de respeito; e, muitas vezes, necessitamos nos posicionar com mais firmeza para que nossa capacidade e inteligência sejam reconhecidas. Afinal, com muita facilidade uma mulher é chamada de “histérica”, “chorona” ou “emotiva demais” simplesmente porque se posicionou de forma mais contundente.
É justamente por isso que o uso irresponsável da palavra presta um desserviço à sociedade. Quando alguém que ocupa uma posição de destaque chama de misoginia toda crítica dirigida a ela, quando, na verdade, a crítica decorre de outro motivo, o termo é banalizado e perde a força que deveria ter.
O resultado é perverso; pois, mulheres que realmente sofrem discriminação acabam dividindo espaço com acusações que nada têm a ver com misoginia. Assim, aos poucos, o uso errado da palavra deixa de identificar um problema concreto e faz com que ela seja vista apenas como um recurso fútil para encerrar debates ou rebater críticas.
É por isso que insisto tanto na importância do dicionário; pode-se até dizer que tenho um “caso de amor” com ele. Mas as palavras não são meros enfeites. Elas carregam conceitos, delimitam ideias e dão nome a problemas reais. Quando usamos uma palavra grave para qualquer situação, retiramos dela a capacidade de identificar exatamente aquilo que a define.
E é aqui que está o desserviço de Janja: ao atribuir o rótulo de misoginia aos questionamentos sobre seus gastos, ela não apenas emprega mal, mais uma vez, um termo da língua portuguesa. Mas contribui para enfraquecer uma palavra que deveria permanecer reservada às mulheres que, todos os dias, enfrentam o verdadeiro problema.
Moral da história? Antes de acusar alguém de misoginia, racismo, fascismo, capacitismo ou qualquer outro “ismo”, vale gastar 30 segundos com o dicionário. Até porque, ele continua sendo infinitamente mais confiável do que a nossa vontade de vencer uma discussão.
Até a próxima!


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