Mulheres (Imagem ilustrativa) Foto: Unsplash
Tenho me sentido cada vez mais mal representado no debate público sobre os direitos das mulheres. Nos últimos dias, chamou minha atenção a seguinte declaração de Paulo Figueiredo:
“Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não, isso que eu estou dizendo. Pode arrancar os pentelhos das calcinhas, pode fazer o que você quiser”.
Sem dúvida, toda pessoa tem o direito de emitir suas opiniões. A liberdade de expressão protege esse direito e constitui um dos pilares da democracia. Até mesmo manifestações profundamente equivocadas são protegidas. Por outro lado, quem fala sujeita-se ao direito de crítica de terceiros. Mais do que isso, opiniões têm consequências.
É até positivo que as pessoas digam claramente o que pensam. Isso permite que a sociedade conheça as ideias, os valores e as concepções que orientam cada um e, assim, possa decidir de quem se aproximar e de quem se afastar.
A declaração de Figueiredo não me parece apenas grosseira. Ela revela uma visão profundamente desrespeitosa da mulher. Ao afirmar que “mulher vota muito mal” e sugerir que mulheres casadas votam melhor porque acompanham o voto do marido, a fala não critica determinadas correntes políticas nem determinadas escolhas eleitorais. Ela reduz milhões de mulheres a um estereótipo e coloca sob suspeita sua capacidade de exercer, com autonomia, um dos direitos mais importantes da cidadania.
É uma declaração tão pequena que, para quem é razoavelmente esclarecido, a mentalidade exposta depõe muito mais contra quem a profere do que contra o grupo atingido.
A forma grosseira com que encerrou sua fala também revela uma mentalidade que, além de tudo, afasta possíveis aliados e simpatizantes sem qualquer ganho: agrada meia dúzia de radicais e afasta meio milhão de pessoas moderadas.
Penso, com tristeza, na avó, na mãe, na irmã, na esposa, nas filhas, na sogra, nas primas e nas amigas de quem pensa assim. E sofro pelos meninos e homens ainda imaturos que estão sendo submetidos a esse processo de deseducação e empobrecimento moral.
Discordar da forma como determinado grupo vota é absolutamente legítimo. O que não é legítimo é atribuir maior ou menor capacidade política às pessoas em razão do sexo. Criticar a capacidade das mulheres de forma genérica fere uma conquista civilizatória.
O que mais me preocupa, entretanto, é a naturalidade com que esse tipo de discurso é exteriorizado. Não há sequer constrangimento. Ao contrário, a impressão transmitida é a de que diminuir mulheres ou ridicularizar sua autonomia intelectual seria motivo de orgulho. E não é.
Coragem é outra coisa. Os homens deveriam utilizar sua coragem, sua inteligência e sua influência para proteger as mulheres da violência doméstica, combater o feminicídio, enfrentar a pedofilia, denunciar a exploração sexual, proteger especialmente as meninas contra toda forma de abuso e violência, preservar os espaços de privacidade e segurança das mulheres e defender seus direitos sempre que forem vítimas de injustiça. É isso que espero de homens que se dizem homens.
Não compreendo a masculinidade como um projeto de afirmação do próprio ego nem como um instrumento para submeter outras pessoas aos próprios interesses. Sempre a compreendi como uma responsabilidade moral: colocar a própria força, o próprio conhecimento e a própria influência a serviço da justiça e do bem.
A masculinidade que aprendi a admirar — e que procuro viver, ainda que imperfeitamente — é aquela que ampara os vulneráveis, protege os inocentes, enfrenta a injustiça, combate a iniquidade, defende mulheres e meninas quando elas são vítimas de violência, exploração ou abuso e honra as mulheres, em vez de diminuí-las.
E esse amparo não decorre de uma suposta superioridade masculina, mas de um dever moral. Hoje alguém pode precisar da minha proteção; amanhã posso ser eu quem precisará da proteção de outro. Defender quem sofre uma injustiça não é um ato de poder, mas de humanidade.
Infelizmente, porém, minha preocupação não termina aí. Também tenho criticado, há bastante tempo, parte da esquerda por posições que enfraquecem direitos conquistados pelas mulheres.
Já afirmei diversas vezes que pessoas trans merecem respeito, dignidade e proteção integral contra qualquer forma de violência ou discriminação. Isso decorre da dignidade da pessoa humana e do Estado de Direito. Todavia, novos direitos não podem ser construídos mediante a supressão de direitos anteriormente conquistados por terceiros.
Entendo que é plenamente possível criar espaços seguros e respeitosos para pessoas trans sem retirar das mulheres os espaços de privacidade e proteção que elas conquistaram ao longo de décadas. Se existe a possibilidade de garantir privacidade a todos mediante a criação de um terceiro banheiro, rejeitar essa solução deixa de ser uma questão de privacidade e passa a representar a pretensão de impor a própria concepção aos demais.
Essa preocupação alcança também vestiários, abrigos destinados a vítimas de violência, competições esportivas e políticas públicas concebidas especificamente para mulheres, como as cotas. Homens biológicos que se identificam como mulheres não deveriam ser admitidos nesses espaços, justamente porque eles foram criados para proteger direitos específicos das mulheres.
Da mesma forma, também já critiquei protocolos de julgamento que, sob o argumento da chamada perspectiva de gênero, acabam, em determinadas situações, comprometendo a isonomia e afastando princípios fundamentais que devem orientar toda decisão judicial. A meu ver, boa parte da esquerda deixou de priorizar a defesa das mulheres faz tempo, e elas não parecem estar recebendo acolhimento no lado oposto.
É por isso que me sinto profundamente mal representado. Uma parte da direita me envergonha quando naturaliza discursos que menosprezam as mulheres ou tratam sua autonomia intelectual com desprezo. E uma parte da esquerda, hoje, já não consegue sequer responder, com clareza, à pergunta mais elementar: o que é uma mulher?
Ao relativizar o conceito de “mulher”, esse movimento acaba suprimindo, na prática, direitos já conquistados por elas. Curiosamente, os dois extremos acabam produzindo um resultado semelhante. Uns diminuem as mulheres; outros enfraquecem os instrumentos jurídicos criados para protegê-las. Nenhum desses caminhos me representa.
Continuarei defendendo uma posição que considero mais coerente: as mulheres merecem respeito integral, igualdade de direitos, proteção contra a violência, preservação de seus espaços de privacidade e segurança e reconhecimento da realidade biológica que fundamentou, ao longo da história, a construção de seus direitos específicos. Continuarei seguindo o art. 5º da Constituição Federal e o exemplo deixado por Jesus Cristo.
Por mais óbvio — e até clichê — que isso possa parecer, não deveríamos esquecer que todos tivemos uma mãe; quase todos temos ou tivemos uma esposa, uma irmã, uma filha, uma avó, uma neta ou uma amiga. Ao proteger qualquer mulher, estamos protegendo também a nossa própria família.
Faço aqui uma reflexão especialmente dirigida aos conservadores. Tenho dificuldade de compreender como alguém pode afirmar defender a família, a dignidade da pessoa humana e os valores conservadores e, ao mesmo tempo, naturalizar discursos que humilham mulheres ou tratam com desdém sua inteligência, sua autonomia ou sua dignidade. Na minha compreensão, essa postura é incompatível com os valores que o conservadorismo deveria preservar.
Enfim, as mulheres estão sendo abandonadas pelos dois lados. Isso representa um fracasso político, moral e civilizatório que transcende a própria polarização. Talvez esteja aí uma das reflexões mais urgentes do nosso tempo. É muito mais grave do que saber quem vencerá a próxima eleição. Pelo menos até aqui, as mulheres continuarão perdendo, seja qual for o vencedor.

